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Vício: o sintoma mais visível na compulsão é a fissura

29/10/2002

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O número de viciados em jogos de azar vem crescendo continuamente. Cada vez mais surgem atraentes e hipnotizantes jogos que vêm causando dependência nos seus usuários. Em salas enfumaçadas, com pouca conversa e muita concentração esses dependente não vem a hora passar e perdem muito em jogos como bingo, sinuca, baralho, roletas.
Apesar de não existir nenhum componente químico, essa alternativa é buscada por pessoas com problemas não só financeiros, mas que encontram nesse meio o refúgio não encontrado em nenhum outro lugar. Essas pessoas jogam, perdem e continuam jogando na esperança de recuperar o dinheiro perdido. Nesse ciclo vicioso se alternam a culpa e o prazer e raramente permitem o controle. Não existe o limite, que é um dos principais sintomas manifestados pelos jogadores compulsivos
Mesmo que demore um pouco os problemas financeiros vão aparecer. Nessas horas ininterruptas de jogatina o dinheiro é investido e perdido na maioria das vezes sem que o usuário perceba. O jogador normalmente é o último a perceber e admitir o vicio. Assim, com o problema já avançado, as perdas não serão somente econômicas como também matrimoniais, legais e que podem ocasionar até no desemprego.
O vicio pode ser causado por diversos fatores que na maioria das vezes são acompanhados por alguma droga. O jogador pode ser considerado compulsivo a partir do momento que ele não sabe mais quando parar e é incapaz de estabelecer seu próprio limite. Existe também a questão genética, ou o causador pode ser algum trauma da infância. A psicanálise atribui a esse comportamento um desejo inconsciente de perda, uma espécie de autopunição.
O sintoma mais visível na compulsão é a fissura, onde o corpo reage ao jogo como se fosse uma droga: a pupila se dilata, os olhos ficam vermelhos, a garganta seca, o suor mais intenso, o coração dispara. Cada músculo parece ganhar vida e já repete uma seqüência incessante de movimentos. Surge então a sensação de prazer e logo após vem o desejo de jogar mais uma vez.
Enzimas cerebrais são liberadas no jogador e são responsáveis por essas emoções ocorrentes. Dentro do mecanismo do vício são essas enzimas que fazem com que a pessoa tenha a atitude compulsiva, ou seja: ele não joga para ganhar ou perder, quer apenas sentir a emoção.
O jogador passa horas na jogatina e, começam então os problemas. Em casa a intolerância já é constante e o descuidado e irresponsabilidade muitas vezes atingem o ambiente de trabalho. Esse vício passa então a ser comparado com outros como nicotina ou mesmo cocaína, já que chega até a causar alterações químicas no corpo. Durante a prática o hormônio causador do stress é liberado. O jogador se dá conta então de que está gastando seu próprio dinheiro e o ritmo cardíaco acelera também. Além dessa comparação feita com drogas, o jogador compulsivo normalmente também as usa durante os jogos. Constatou-se que 75% dos jogadores são dependentes de nicotina e que 20% dependem e fazem uso do álcool durante o jogo.
Como qualquer outro vicio, esse é causador de imensos desarranjos. O desemprego pode vir a acontecer pois muitas vezes esses dependentes viram dias em salas de jogos e já hipnotizados perdem a hora ou não se encontram em devidas condições de trabalho. Além disso, com apostas e dívidas começam a acontecer os indevidos roubos. Esses são inevitáveis e, já sem parâmetros os viciados são obrigados a vender e se desfazer de seus próprios pertences, ocasionando nas brigas familiares.
Existem três tipos de jogadores, os eventuais, sociais e patológicos. Os jogos em si não são o problema quando são praticados periodicamente e por prazer. Eles serão prejudiciais a partir do momento em que o motivo pelo qual eles são procurados é a fuga, principalmente quando não é nítida e admitida pelo jogador. Já existem testes que permitem a descoberta dessa classificação e os que preocupam são realmente os patológicos que dependem desses jogos e os transformam na parte mais importante das suas vidas. Se o jogador está nessa classificação o perigo é grande, o jogo já é uma “obrigação”, da qual ele dificilmente conseguirá se livrar.
Existem os mais variados depoimentos, adolescentes, adultos, casados, solteiros. Alguns começam por puro prazer e curiosidade. Outros buscam um refúgio, mas o fato é que esses dependentes são fascinados nessas mesas, telas ou baralhos e querem vencer esses adversários. Na maioria das vezes os jogadores compulsivos perdem sua personalidade, mudam e não conseguem mais voltar a ser o que sempre foram. Existe aquele desejo e aquela sensação de revanche que está sempre presente, fazendo com que o usuário continue jogando eternamente, até chegar no estado crítico.