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Leandro Karnal: Sodoma dos puritanos

20/05/2019

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Leandro Karnal*

Os lugares escolhem as pessoas. Quando estamos no interior do Nepal, parece que todos ali frequentaram a mesma escola. O mesmo já me ocorreu na Lapa, no Rio de Janeiro, ou no castelo de Heidelberg, na Alemanha. As tribos não escolhem para onde ir; são os lugares que exercem magnetismo sobre os bandos especializados. Temos almas imantadas pelo fascínio de algumas paisagens. Como cardumes de salmões que obedecem a um instinto poderoso para reproduzir rio acima, viajantes integram piracemas obrigatórias. Aparentemente, todos pertencem à mesma espécie.
Grandes comunidades têm um desvio padrão que exalta a maioria. A função do herege é confirmar a ortodoxia. O desviado exibe a luz do caminho reto. Eu fui a Las Vegas! Confesso a céu aberto: estive na capital do pecado, the sin city.
Pouparei a querida leitora e o estimado leitor dos detalhes que explicam a escolha entre compromissos acadêmicos na Califórnia e em Nova York. No meio do caminho, havia uma pedra cintilante de néon, era Las Vegas.
Eu estava preparado para o barroco das luzes e o kitsch ostensivo das cópias. Apesar de toda advertência, tudo foi além da imaginação. Tentarei analisar com justiça. Primeiro: a comida é ótima. Excelentes restaurantes e com qualidade superior à de muitos estrelados de lugares mais elegantes. Também há o passeio ao Grand Canyon, imperdível e impactante. Descer o rio Colorado em meio ao silêncio dos paredões é uma epifania que nos faz estar felizes por ter vivido até aquele momento. Como em Dubai ou Londres, existe a alegria de conversar com pessoas que trabalham nos hotéis e restaurantes e saber do mundo, pois, do Laos ao México, temos toda a humanidade. Alex, o garçom carioca; Diego, o senhor que limpava o quarto e era devoto de San Juan Diego; o senhor cambojano do táxi elogiando a … China; Inés, a guatemalteca do café: um sorriso e se inicia uma conversa fascinante sobre sociedades distintas. Adoro isso.
Há pouca originalidade no mundo. Colunas clássicas romanas eram cópias de gregas. Cidades do Brasil copiaram modelos urbanos portugueses, franceses e norte-americanos. Como já se disse, minha querida São Paulo é a sobreposição de Ouro Preto, Paris e Nova York, com outras cidades menos glamourosas na mistura, claro. Tudo se copia de alguma forma. Las Vegas levou a cópia a um estágio superior. Andava-se de gôndola no meu hotel. Existe o campanário de Praça de São Marcos. As solenes estátuas do Leão de São Marcos e de São Teodoro são visíveis da minha janela. As arcadas são pintadas em estilo Tiepolo e Bronzino, só que sem eles disponíveis. Come-se na Praça de São Marcos melhorada, sem pombos, com menos turistas e o céu coberto por uma pintura de… céu. Exausto? A poucos metros, há um quase Coliseu, um arco do Triunfo, a torre Eiffel, a esfinge de Gizé e uma pirâmide a projetar um potente jato de luz. Satisfeito? Nem estamos começando! Há erupções de vulcões, águas que dançam, tigres brancos, golfinhos amestrados, espetáculos de toda ordem, meninas em trajes sumários, despedidas de solteiras e de solteiros pela rua, copos extravagantes com bebidas coloridas e, a cada centímetro, um cassino. Gostou? Não ignore limusines, Elvis Presley cantando na esquina, serpentes píton para fotos e o turista interno dos EUA, quase uma categoria específica na fauna de Vegas. O barroco pode ser a arte do excesso presente na estética e nos corpos.
É fácil e algo hipócrita criticar Las Vegas. Parece a estratégia que Umberto Eco utilizou em viagens semelhantes. As capitais imperiais são cosmopolitas e, quase sempre, cafonas. Todo viajante mais sofisticado como Eco tende a assumir a posição cômoda inicial de Simão Bacamarte e sua Casa Verde: eu sou a régua da razão (ou da estética) e o mundo enlouqueceu. Em era de selfies e de imagens impactantes, Vegas é um nicho poderoso.
Já foi dito que os hospícios servem para dizer não exatamente que os loucos estão lá dentro. O verdadeiro fulcro é declarar que eu, por lá não estar internado, devo ser sadio. Possivelmente, Vegas sirva para sinalizar a uma sociedade muito puritana, a norte-americana, que existe um espaço para descansar da cenografia pudica. Aqui é uma Pasárgada onde posso andar com roupas insinuantes, beber na rua, fumar dentro dos cassinos, jogar, quebrar horários. Aqui se ignora o politicamente correto e mulheres são assediadas na rua, algo que em Boston, provavelmente, daria cadeia. Já imaginei que eu amo Nova York talvez porque seja a única cidade que não pertença aos EUA, porém ao mundo. Talvez, Vegas seja uma cidade que também não pertença ao mundo norte-americano, todavia a uma ilha da fantasia de suspensão do superego. É Sodoma, mas habitada por puritanos de férias.
Joguei dez dólares em uma máquina. Ganhei um dólar e setenta e cinco centavos. Parei de jogar. Meu protestante interno talvez seja mais forte do que a senhora de blusa com flores pink ao meu lado. Ela ri, joga, grita, solta sua energia e bebe feliz. Vegas faz retornar a escolha entre a pílula azul e vermelha de Matrix. Azul é a fantasia, vermelho é o real. A soma de azul e vermelho pode resultar em rosa, como a blusa da jogadora entusiasmada. Vegas criou uma caverna de Platão com esteira rolante e foto de souvenir. Quem poderá julgá-la? Afinal, o bom da ilusão da miragem no deserto de Nevada é: tudo o que aconteceu ali ficará naquele espaço, menos nossa dor e solidão. Bom domingo para todos nós. (
Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo)