Home Opinião O que o próximo Presidente do Brasil pensa sobre jogos, loterias, bingos, jogo do bicho e cassinos?
< Voltar

O que o próximo Presidente do Brasil pensa sobre jogos, loterias, bingos, jogo do bicho e cassinos?

04/10/2002

Compartilhe

As eleições presidenciais estão se aproximando e o mercado lotérico precisa conhecer ou lembrar do que os nossos candidatos pensavam ou pensam e até mesmo algumas ações sobre o setor antes de serem candidatos. O BNL fez algumas pesquisas e descobriu que os três melhores candidatos colocados nas pesquisas, já tiveram um dia que tomar algum tipo de decisão com relação à cassinos, loterias, bingos ou jogo do bicho. Após a leitura, façam as suas apostas!!!

Luiz Inácio Lula da Silva
O presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores nunca fez nenhuma declaração contrária ao setor. Em entrevista a Games Magazine de setembro de 2000, o candidato ao ser perguntado pelo jornalista Gildo Mazza se ele era a favor da liberação dos cassinos e das casas de bingo no Brasil, Lula preferiu uma resposta que não comprometesse e afirmou: “Pelo momento que vive o país, acredito que as prioridades sejam totalmente diferentes. O objetivo principal no momento é o de consertar a situação econômica e melhorar a qualidade de vida do povo.”
Mas em 1o de setembro do ano passado, o pré-candidato do PT à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou no Rio, em um seminário sobre segurança pública e em função do possível envolvimento do PT gaúcho com o jogo do bicho que era favorável à legalização do jogo do bicho e na entrevista coletiva afirmou: ”A melhor solução para o jogo do bicho é legalizar. As pessoas pagariam os impostos normalmente e acabaria a clandestinidade”, afirmou Lula, que deu a sua explicação para o motivo da proibição. ”Porque há interesses políticos em não legalizar. Porque tem gente que usa o jogo do bicho para lavagem de dinheiro, para a corrupção”, disse ele, que citou o caso do ex-deputado federal João Alves – cassado por sua atuação na Comissão de Orçamento. ”Só alguns (ganharam). Como o baixinho do orçamento… o João Alves, ele ganhou dez vezes. Eu jogo há 20 anos e não ganhei nenhuma vez”, comparou ele, insinuando que também faz uma fezinha na atividade ilegal e confundindo a ”origem” alegada da fortuna do ex-deputado – que afirmou ter ganho dinheiro apostando na loteria. Indagado se jogava no bicho, Lula disse que não. ”Quando a megassena está acumulada, eu faço uma fezinha. Mas eu sou um azarado no jogo”, explicou.
Mas o modo como Lula votou na Assembléia Constituinte de 1988 seguiu a mesma linha. Ele votou a favor da limitação do direito de propriedade privada, da estabilidade no emprego, da nacionalização do subsolo, da estatização dos bancos, do limite de 12% para os juros, da limitação dos encargos da dívida externa, da legalização do jogo do bicho, do abordo e da desapropriação da propriedade produtiva.
Anthony Garotinho
O ex-Governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho, e candidato a presidência pelo PSB, mesmo sendo evangélico, por várias vezes se manifestou favorável à legalização da atividade, desde que os recursos advindos dessa atividade fossem aplicados no social.
E foi pensando assim, que o ex-governador do Rio de Janeiro, ao perceber que com a proibição das máquinas de videobingo pelo presidente da República, Fernando Henrique em 21 de outubro de 1999, e com a transferência da venda das cartelas de bingo para a Caixa Econômica Federal, retiraria dos cofres da Loterj aproximadamente R$ 8 milhões anuais no seu faturamento, ele assinou o Decreto Nº 25.723, publicado no Diário Oficial do dia 17 de novembro de 1999, criando a Loteria de Bingos do Estado do Rio de Janeiro e deu poderes à Loterj para fiscalizar e operar as atividades de bingos no estado, o que vem acontecendo até hoje, transformando o Rio de Janeiro no estado pioneiro na estadualização dos bingos.
José Serra
O ex-Ministro da Saúde, senador e candidato a presidência pelo PSDB, José Serra, já fez várias ações contrárias ao setor. Durante uma reunião da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, quando o Projeto de Lei: SF PLC 00091/1996 de 15/06/1994 que “DISPÕE SOBRE A LEGALIZAÇÃO DA PRATICA DE JOGOS DE AZAR E DA OUTRAS PROVIDENCIAS”, já tinha sido discutido e emendado e portanto, pronto para ser votado, o senador pediu a palavra e fez um discurso cheio de argumentos contrários a legalização, baseado nas pesquisas do economista Ricardo Gazel, ex-professor da Universidade de Nevada. O Relator Edson Lobão evitou colocar o Projeto em votação, pois percebeu que ele seria derrotado. Pediram ao Projeto e ele está se arrastando até hoje no Senado. Mas para que não ficassem dúvidas quanto a sua contrariedade a legalização do jogo, ele publicou um artigo na edição do domingo, dia 29 de março de 1998, na Folha se São Paulo, onde desfilava os mesmos argumentos contrários que ele tinha apresentado no Senado Federal.
Com o nome “O Jogo Errado”, o Senador afirmava que o país não ganharia nada com a volta dos cassinos e que a campanha a favor dos cassinos no Brasil concentrava-se na tese de que significariam mais empregos. Mas não haveria riqueza acrescentada de forma produtiva. As pessoas simplesmente deixariam de gastar em outras coisas para pôr seu dinheiro nas roletas ou nos caça-níqueis. Isso geraria menos emprego ou desemprego noutros setores.
Abrimos mão de publicar o artigo do Senador, para veicular artigo de Luiz Angelo Pinto, publicado na Revista Games News em julho de 98 e que também pode ser encontrado no livro “Diversão: Esse Negócio”, onde o autor comenta e posiciona contra os tópicos do artigo do José Serra na Folha de São Paulo.
QUAL É A JOGADA?
Sobre a matéria O JOGO ERRADO do José Serra publicada na Folha de São Paulo em 29/03/98
O chefe da polícia/Pelo telefone/Manda me avisar/Que na Carioca/Tem uma roleta/Para se jogar. – Donga. Pelo Telefone (samba gravado em 1917)
Devo dizer, de início, que não concordo com o professor Serra. Faço estes comentários com todo o respeito que ele merece. Aliás, só me disponho a fazê-los porque a argumentação vem de alguém que prezo intelectualmente.
Antes de mais nada, deixemos de mistificações — o jogo existe no Brasil. Sob forma legal, semilegal e clandestina. O maior cassino do Brasil é estatal. E, pelo jeito, não quer concorrência. O Estado o explora sob forma de Loto, Loteria Federal, Loterias Estaduais, Loteria Esportiva e outras variantes. O Cassino Brasil tem sucursais em todos os Estados, em todos os mais de 5.000 municípios. É muito maior do que Las Vegas. Empresas particulares exploram o jogo via televisão — Papa Tudo, Tele Sena, sorteio de carrões, os vários disque 900 e tudo o mais que assanha o sonho dos consumidores. E temos o jogo do bicho e temos os bingos legais e clandestinos proliferando por este Brasil. Aliás, diga-se de passagem, os clandestinos só o são por causa das restrições impostas pela Lei Zico. O que faz com que o jogo seja dito clandestino são as limitações arbitrárias impostas por uma lei arbitrária — tem que pagar para algum clube de futebol, o salão tem que ter não sei quantos metros quadrados e assim por diante. Já comentei isso em outra matéria publicada nesta mesma revista.
Não sou contra o jogo. Sou contra a exploração monopolística do jogo por parte do Estado e de alguns poucos grupos de privilegiados.
Diz o Serra logo no início da sua matéria que a defesa do jogo se concentra na tese de que “cassinos significam mais empregos para o Brasil e suas regiões, receita líqüida para os governos e crescimento econômico para todos”.
Quanto à criação de empregos, é difícil negar que a implantação de um novo setor na área de serviços, como é o jogo, e com investimentos consideráveis não vá gerar empregos. Vai. E o Serra, ao longo da sua matéria, não o nega. Não há como negá-lo. Contudo, devo fazer aqui algumas considerações. Concordo que argumentos desse tipo — criar mais empregos — não valem grande coisa. Sempre que se diz que isso ou aquilo deve ser implantado porque vai “gerar empregos” alguém está querendo enganar alguém. Nada é produzido porque vai “gerar empregos”, mas porque existe algum segmento de mercado que pode gerar renda para quem se dispõe a investir. E tem mais: haja o que houver, invista-se seja lá onde for, a tendência mundial é de aumento de produtividade e portanto de redução de horas de trabalho, de redução de emprego. Cada vez se produz mais com menos trabalho. Ainda bem. Mas esse tema requereria uma discussão mais longa, mais detalhada que não pretendo levantar aqui. Já falei também alguma coisa sobre esse tema nesta mesma revista.
De qualquer maneira, o argumento “criar empregos” é sempre uma mistificação. O objetivo do sistema de mercado, único vigente, é sempre produzir mais, melhor e de forma mais diversificada de modo a atender ou mesmo criar (por que não?) um leque maior de alternativas de consumo. Aumentar a produtividade, reduzir o tempo de trabalho e, conseqüentemente aumentar o tempo disponível para o lazer, é, aliás, o que vem acontecendo desde a primeira Revolução Industrial. A única novidade é a mudança do ritmo em que isso está acontecendo agora, nestas últimas décadas do século.
Outro argumento que estaria sendo utilizado indevidamente, segundo o articulista, para defender a abertura de cassinos e que “os cassinos trariam recursos externos significativos para o Brasil por meio de turistas estrangeiros que viriam jogar aqui”.
Pergunta o Serra: “Algum patrício rico abandonaria Montevidéu ou Las Vegas para fazer suas apostas no Oiapoque?”
No Oipoque não que ninguém é bobo. Mas, no Rio ou em Salvador, sim. O Serra sabe que, com ou sem jogo, o afluxo de turistas para o Oiapoque é um pouco diferente daquele para o Rio.
Quanto à permissão ou não do jogo por parte de um Estado há algumas considerações a fazer. Pensemos em termos de um Estado moderno, democrático, não totalitário. Não há por que o Estado “meter o bico” e decidir em todos os detalhes o que “pode” ou “deve” ser produzido ou que serviços devem ser prestados. Um Estado, tal como se o entende hoje, depois de todas as tentativas frustradas de controle do mercado, tende cada vez mais a coordenar a atividade existente e não impedir, proibir esta ou aquela atividade. Todas as tentativas de proibição, o mais que fazem é criar e alimentar setores clandestinos que trabalham à margem do Estado. Se há mercado para um produto ou serviço, esse produto ou serviço vai aparecer no mercado — queira o Estado ou não. Isso vale, por exemplo, para a implantação de um serviço de lotações, complementando o sistema “oficial” e ineficiente de transportes coletivos na cidade de São Paulo. Por mais que a Câmara de Vereadores da cidade, como sempre a serviço do lobby das empresas de transporte, tente impedir, as lotações vão circular e prestar o seu serviço, com ou sem o aval do Estado. A diferença é que, para trabalhar sem o aval do Estado, o setor será vítima de extorsão por parte de fiscais corruptos. Não houvesse a proibição não haveria a extorsão nem a corrupção.
O mercado existe e se impõe. O melhor que o Estado pode e deve fazer é coordenar, organizar, monitorar o que existe.
Poderia alinhar aqui páginas e páginas de tentativas frustradas de o Estado pretender proibir, impedir o funcionamento de setores que acabam se impondo pelas simples regras do mercado, porque são necessários, porque há procura e pronto. Mas não vou expor aqui toda a teoria da economia liberal do século passado. O professor Serra a conhece melhor do que eu, com certeza.
Sempre que se tenta fechar demais ou regulamentar demais seja lá que setor for, vai surgir um segmento dito clandestino, subterrâneo, à margem do Estado e suprir o mercado. Ao lado do Sistema Bancário existe a agiotagem. Junto com o dólar oficial existe o paralelo, com cotação diária em todos os jornais. Quando os custos de importação legal são muito altos florece o contrabando. Os mais respeitáveis serviços, muitas vezes, têm um preço “com nota” e outro “sem nota”. Quais são os limites, até onde o Estado pode ir, onde deve parar também é um problema que não está resolvido. Muitos são os problemas e o melhor que podemos fazer é não criar outros gerando e alimentando setores clandestinos que se apropriam de tudo o que o Estado se recusa a aceitar como fato. Não há por que criar “ilegalidades” inúteis que só vão propiciar a extorsão e a corrupção. É melhor que o Estado não fique por fora de tudo o que a criatividade humana, a maravilhosa criatividade humana, resolva produzir e comercializar.
Acompanho com interesse e admiração o trabalho que a atual equipe de governo vem tentando desenvolver — a difícil e ousada tarefa de reformar o Estado. Difícil e ousada por causa do complexo sistema ideológico e de interesses que se opõe a qualquer transformação. Leia-se sobre isso o conjunto de discursos/aulas do sociólogo e presidente (nessa ordem), Fernando Henrique Cardoso. Leia-se particularmente seu discurso proferido em Montevidéu, publicado na íntegra na edição de 24/3/98 no jornal O Estado de São Paulo. Mas, eu dizia, é surpreendente que um destacado membro dessa equipe, respeitável economista, saia a campo com esse tipo de argumentação.
Diz o articulista em outra passagem: “Há, mesmo, quem argumente que a proibição dos cassinos fere os direitos individuais — uma tese que poderia ser facilmente evocada para liberarmos o consumo de crack e o tráfico de drogas, ou abolirmos a obrigatoriedade do cinto de segurança”.
E fere mesmo. Sem dúvida, fere direitos individuais. Fere de um lado o direito de um empresário prestar um serviço para o qual sabe que existe procura e, de outro lado, o direito do consumidor dispor de uma alternativa a mais de lazer. É claro que saber quais são os limites dos direitos individuais é um problema ético que está longe de ser resolvido. O professor Serra que me desculpe mas não constitui uma argumentação muito sólida colocar tudo no mesmo saco, tratar da mesma maneira como se fossem coisas do mesmo tipo, a prestação de um serviço na área de lazer — o jogo — e o consumo de crack ou o tráfico de drogas.
Voltando ao assunto. Diz o Serra: “Os cassinos provavelmente aumentariam o déficit da balança de pagamentos, face à importação de equipamentos e às remessas de dividendos colhidos pelos capitais estrangeiros que dominariam o setor”.
Não sei se os cassinos vão aumentar ou não o déficit da balança de pagamentos. Só vendo. Mas não é essa a questão nem a orientação deste governo. Ou, de repente, não mais que de repente, voltamos a ficar conservadores/esquerdistas/nacionalistas? O capital estrangeiro está entrando em todos os setores (ainda bem!) e, é claro, remetendo dividendos, sim, que para isso o capital foi feito… Quem pretende “decidir”, quem é o “iluminado” que “sabe” em que setores “pode” e em que setores “não pode” entrar o capital estrangeiro? Não dá mais para discutir essas coisas…”De onde viria a receita dos cassinos? Evidentemente do bolso dos jogadores”. Mas é claro. De onde vem a receita dos restaurantes? Do bolso de quem vai lá comer. Quem usa o serviço paga pelo serviço. Ou me escapou alguma coisa?
“Não haveria nenhuma riqueza acrescentada de forma produtiva.”
Isso vale para toda e qualquer atividade de lazer e para muitas outras coisas. Depende do que se considera “produtivo”. Há mais riqueza acrescentada de forma produtiva quando se constrói um edifício ou quando se escreve um romance ou se cria uma obra de arte ou se produz um ônibus um trator, uma garrafa de vinho, um quilo de caviar, um carro de luxo um show da Gal, um programa de televisão, uma latinha de Coca-Cola ou um outdoor de publicidade do governo? Quem vai decidir isso? Vamos abolir todas as formas de lazer e todas as atividades culturais e passar a produzir somente aço? Já tentaram isso algures em mais de um sistema totalitário e nunca deu certo. Não vou contar essa história ao Serra. Ele, competente economista, a conhece melhor do que eu.
“As pessoas simplesmente deixariam de gastar em outras coisas para deixar seu dinheiro nas roletas ou nos caça-níqueis. Isso se chama desvio de recursos e gera menos emprego ou desemprego noutros setores. Cria de um lado, destrói de outro”.
A economia é um sistema dinâmico. As pessoas sempre deixam de gastar de um lado e passam a gastar em outro. O volume consumido não muda. Não é isso que, no conjunto, cria ou destrói emprego. E ainda cabe a pergunta: é o Estado que vai do alto da sua sabedoria “decidir” o que o cidadão “deve” ou “pode” consumir?
Outro “argumento” contra o jogo, se é que podemos chamar isso de argumento: “Em Atlantic City, metade dos restaurantes da cidade fechou as portas dois anos depois da abertura dos cassinos na cidade, no final dos anos 70.”
Sim. Acredito que tenham fechado. E muitas outras coisas devem ter fechado em Atlantic City depois da abertura do jogo e dos milhões de dólares investidos na construção dos cassinos. Aliás, não dá nem para comparar o que existia em Atlantic City antes da construção dos cassinos com o que existe agora. Quem a conheceu e quem a conhece sabe. Sem consultar qualquer estatística sem evocar qualquer pesquisa, posso afirmar que a renda da cidade, o nível de empregos e de salários e o afluxo de turistas é agora incomparavelmente muito, muito maior.
“O bem-estar da família dos jogadores diminuiria, junto com seu consumo e seus investimentos em educação e saúde ou em poupança para casa própria, automóvel ou outros bens de consumo duráveis”.
Muitas são as tentações do mercado. O consumidor é assediado e induzido a consumir a cada minuto. Na rua, pela televisão, por toda a mídia, pelos vizinhos, pelo telefone, pelos folhetos que são enfiados por baixo da sua porta, pela janela do seu carro ou na sua caixa de correio, pelos novos modelos de carro deste ano, pelos autofalantes apregoando pamonha, pelas festas de Natal, Páscoa, aniversários, dia das mães, dia dos pais, dos namorados, da secretária, dos cachorrinhos e dos piriquitos. Vivemos numa sociedade de consumo. Pois é. Não há porque imaginar que colocar à disposição dos consumidores um serviço a mais, entre tantos, seja um ato que peque contra a economia da família. Aliás, o que caracteriza uma verdadeira sociedade de consumo é o seu amplo leque de opções. Quanto mais, melhor.
“Em breve” — é outro argumento do articulista — “teríamos uma centena (de cassinos). Seria gastar tinta à toa controlar, pela lei, sua proliferação.”
Primeiro, acho que teríamos, não uma centena, mas centenas de cassinos. Como em qualquer outro setor, abrir-se-iam cassinos até que o mercado estivesse saturado e não houvesse mais espaço para fazê-lo. Como em qualquer outro setor, os que estivessem sobrando, simplesmente fechariam. Por si. Não há por que se gastar tinta à toa e “controlar pela lei” a sua proliferação. O mercado, sem gastar tinta, se encarregaria disso, como sempre se encarrega. Claro que não deveríamos deixar ao arbítrio de alguns deputados o direito de permitir ou impedir que se abra um cassino. Seria a melhor forma de incentivar a bandalheira.
O jogo é um serviço como outro qualquer. Alguém, para prestá-lo, investe. E investe para obter um retorno. Um cassino presta um serviço, é um local de lazer e, como empresa, gera uma receita. Proveniente das apostas, é claro. E, como qualquer outra empresa, também tem despesas — pagamento dos prêmios, aluguéis, funcionários, impostos etc. A diferença entre a receita e a despesa, como em qualquer empresa, é o lucro do cassino. Assim, “denunciar” que os cassinos têm lucro é o mesmo que “denunciar” que um restaurante, um supermercado ou qualquer outra empresa têm lucro. Quando vamos a um restaurante ou a um supermercado estamos interessados em avaliá-los pelo menos por dois critérios. Primeiro, qual é a qualidade da mercadoria vendida ou do serviço prestado. Segundo, qual é o preço, quanto estamos pagando por isso. Com relação ao jogo teremos que avaliá-lo também por esses critérios. Antes de mais nada acabemos com alguns mitos muito divulgados e que, como todos os mitos, são repetidos sem que se pense sobre eles. Primeiro mito: cassino é um local em que as pessoas vão e podem enriquecer numa noite. Podem sair de lá milionárias, acendendo charutos com notas de 100 dólares. O volume do prêmio é proporcional à aposta. Em geral, na grande maioria dos casos, considerando-se a média, aposta-se pouco por pessoa. As grandes apostas existem, sim. Mas são exceções, não a regra. Assim, é muito raro que alguém saia milionário de um cassino. O segundo mito: as pessoas vão aos cassinos e perdem tudo. Dilapidam seu patrimônio, perdem a casa, o carro, a camisa do corpo… Besteira. Se você circular pelas salas de jogo dos cassinos de Las Vegas, Reno, Atlantic City vai ver por lá, como público predominante, uma classe média gastando dentro das suas possibilidades. Uns mais, outros menos. Falo da maioria. Doidos existem em qualquer lugar. Então, não está excluída a possibilidade de alguém entrar num cassino e gastar muito mais do que poderia. E acontece. Não como regra, mas acontece. Como acontece com qualquer consumidor compulsivo que sai por aí estourando seus cartões de crédito, com um alcoólatra, com alguém que dirige um veículo em alta velocidade se matando e matando os outros. Há, sim, o jogador ou o consumidor compulsivo, o alcoólatra, o doido varrido. Mas isso, felizmente, insisto, não é a regra. Não podemos proibir carros, cartões de crédito ou bebidas porque há doidos. Não podemos privar toda a população desse ou daquele serviço ou produto porque alguém vai fazer um mau uso dele. Vamos, de uma vez por todas, parar de argumentar contra o jogo usando-se de mitos que só denotam má fé ou ignorância de quem os usa. Claro que esses mitos se formam e são coerentes com certos valores da nossa sociedade. Dentro da tradição judaico-cristã, base da nossa cultura, há dois valores que se opõem. De um lado o trabalho, como valor positivo. Trabalhar é bonito. De outro lado o lazer, como valor negativo. Divertir-se é feio. É coisa de vagabundo. É uma atividade perigosa que afasta as pessoas do primeiro e sagrado valor — o trabalho. Jogo é uma atividade de lazer, portanto é coisa feia. E todos os argumentos serão usados para reforçar e justificar essa idéia.
Como disse, o jogo é um serviço. E tem seu preço. O que interessa saber, e quase ninguém discute, é, afinal, quanto custa esse serviço. Que preço pagamos para nos divertir num cassino ou com qualquer outro jogo. Aqui, para avaliar o preço de um jogo precisamos de um pouco, só um pouquinho, de matemática. Desculpem.
Para entendermos quanto custa um jogo precisamos usar o conceito de “esperança matemática”. Explico. Esperança matemática é o valor do prêmio ao qual o jogador concorre multiplicado pela probabilidade de ganhá-lo. Dou um exemplo. Se você compra por R$ 3,00 uma rifa de uma bicicleta que vale, digamos, R$ 200,00 e se foram vendidos 100 bilhetes, a probabilidade de um bilhete sair vencedor é exatamente 1/100. Assim, a esperança matemática é R$ 200,00 multiplicado por 1/100. Isto é: R$ 2,00. Esse valor, R$ 2,00, deve ser comparado com quanto você pagou pelo bilhete — R$ 3,00, no caso. Agora você tem elementos para saber que está pagando R$ 3,00 por um jogo que vale R$ 2,00. Muito bem. A diferença é o lucro de quem promoveu a rifa. O lucro neste caso é de 33%. A diferença, R$ 1,00, é 33% dos R$ 3,00, que foi a “receita”. A mesma regra pode e deve ser aplicada a qualquer tipo de jogo. E, se você não tiver esses dados para avaliar o jogo, não sabe quanto está pagando. Acontece muitas vezes. Por exemplo: se num programa de televisão oferecem como prêmio uma linda Mercedes que vale R$ 100.000,00 e para concorrer você tem que fazer um telefonema que vai lhe custar R$ 3,00 o jogo é caro ou barato? Não sabemos. Nunca vi qualquer canal de televisão divulgar o número de apostadores, o número de telefonemas que recebeu. Assim você não sabe qual é sua probabilidade de ganhar. Não sabe o preço de jogo. Não sabe quanto está pagando para participar daquele jogo.
Outro exemplo. Uma roleta num cassino. Você sabe exatamente quanto você está apostando e sabe exatamente qual é sua probabildade de ganhar. Se você aposta R$ 1,00 em um número, por exemplo, no 28, sabe que se ganhar o prêmio será de R$ 35,00. E sabe também que a probabilidade de ganhar é exatamente 1/38. A esperança matemática (preço do jogo) é R$ 35,00 multiplicado por 1/38, ou seja — aproximadamente R$ 0,95. Em outras palavras, a roleta paga 95% do que arrecada. Está, com certeza, entre os jogos mais baratos. Aliás, todo jogo de cassino é incomparavelmente mais barato do que a Loto, a Loteria Esportiva, todos os jogos que são monopólio do Estado, todos os que são vendidos via televisão — Papa Tudo, Tele Sena, todos os 0900 etc. O jogo, como qualquer outro produto ou serviço, baixa o seu preço se houver concorrência. Jogos que são monopólio do Estado ou reservados a um diminuto círculo de privilegiados são fatalmente jogos caros. Os cassinos de Las Vegas concorrem entre si baixando o preço dos jogos. E nisso não há nenhuma novidade — o que faz o preço baixar é o fato de haver concorrência. E, devo supor, os donos do jogo no Brasil não querem concorrência. O bom, para eles, é poderem vender os seus joguinhos e suas jogadas pelo preço que bem entenderem. A quem interessa proibir os cassinos no Brasil? Deixo a conclusão por conta do leitor…
“Estudos feitos pelo economista Ricardo Gazel, ex-professor da Universidade de Nevada (…) mostram que, no Estado de Wisconsin, a dívida média dos jogadores compulsivos é de US$ 35.000. Nesse mesmo Estado 60% dos jogadores compulsivos já pensaram em suicídio por causa do jogo, sendo que 20% deles efetivamente tentaram se matar.”
Ora, ora. Usar os jogadores compulsivos como amostra para dizer alguma coisa sobre o jogo é o mesmo que usar uma amostra de alcoólatras para fazer afirmações sobre consumo de bebidas… Ou uma amostra de pacientes terminais para dizer alguma coisa sobre média de vida. Não vi os “estudos” e “pesquisas” do sr. Gazel. Só posso repetir aqui o que está citado pelo Serra. E o que está citado não é suficiente para que se chegue a qualquer conclusão sobre os “malefícios” do jogo…
Só para constar devo dizer que a briga entre os Estados nos Estados Unidos para permissão ou não do jogo é antiga e acirrada. Um Estado como o de Nevada, por exemplo, que recebe impostos provenientes do jogo em cidades como Las Vegas e Reno, não tem o menor interesse em que se permita o jogo em outros Estados. E os professores da Universidade de Nevada, em última análise, também são pagos com o dinheiro proveniente do jogo. De que Universidade era mesmo o Prof. Gazel? De Nevada. Claro que isso não desmerece em nada suas pesquisas e conclusões…
Outra afirmação, no mínimo curiosa: Em Las Vegas “8,5% da população adulta tem algum problema ligado ao jogo”.
Essa afirmação também foi colhida pelo Serra nas pesquisas do sr. Gazel. Primeiro, o que quer dizer exatamente “algum problema”? Não sabemos. Não está dito. Dizer que uma determinada porcentagem de uma população tem ou teve algum problema com o jogo, ou com o carro, ou com os cartões de crédito, com os supermercados, com o patrão, com os empregados ou com o Congresso Nacional não é dizer muita coisa. De qualquer maneira, se 8,5% da população adulta de Las Vegas, tem algum problema com o jogo numa cidade que vive do jogo, concluímos que, surpreedentemente, 91,5% da população adulta dessa mesma cidade não tem problema algum ligado ao jogo…
Claro que a abertura de cassinos, como qualquer atividade nova, desvia recursos de alguns setores para outros. É a dinâmica do sistema econômico. Claro que os setores que se sentem prejudicados esperneiam. Faz parte do negócio. É assim, sempre foi. Não por isso vamos privar o consumidor desse ou daquele serviço. Não por isso o Estado deve entrar proibindo isso ou aquilo, reforçando privilégios, impedindo atividades, dando margem à corrupção e empurrando para a clandestinidade atividades que poderiam e deveriam pagar impostos. Qualquer atividade que se implante pode gerar problemas. Claro. Cabe ao Estado, acompanhar, coordenar, recolher impostos, regulamentar dentro de certos limites. Não de modo a fazer com que a atividade fique na mão de meia dúzia de privilegiados, amigos do rei ou donos dos lobbies que infestam infelizmente o nosso Congresso. Quando vamos, afinal, ter a coragem de cair numa democracia?