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As Igrejas e o jogo 12/09/2016

A imputação às casas de diversões lúdicas de que promoveriam lavagem de dinheiro é resultado de visão distorcida da realidade


Ney Carvalho*

A Frente Parlamentar Evangélica, (FPE) do Congresso Nacional manifestou sua contrariedade à aprovação do Projeto de lei nº 442/1991 que propõe a legalização dos jogos de azar no Brasil. O texto da entidade afirma:

 

“A situação é grave e merece nossa especial atenção, pois a legalização dos jogos, longe de representar um benefício para a sociedade brasileira, representa a legalização de algo pernicioso que favorece a lavagem de dinheiro e a corrupção, dificulta a fiscalização por parte dos entes governamentais, e principalmente induz e incentiva o vício em jogos, o qual é considerado como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS).”

 

O ponto nevrálgico da matéria não é discutir como se lava dinheiro. Qualquer ramo de negócio pode servir para essa prática, inclusive uma casa de atividades lúdicas. O foco deve ser em por que se necessita fazê-lo. É claro que a exploração de jogo clandestino demanda regularizar o lucro dela proveniente. Mas isso é um procedimento tipicamente brasileiro, pela simples razão que o Brasil, ao lado de Cuba e de nações islâmicas radicais são os únicos países do mundo que criminalizam o jogo em diversas de suas formas. Se o jogo fosse legalizado, deixasse de ser uma prática subterrânea, desaparecia a procura por lavagem de dinheiro nesse terreno. A atividade seria desenvolvida à luz do sol, que a sabedoria universal afirma ser o melhor dos desinfetantes.    

A imputação às casas de diversões lúdicas de que promoveriam lavagem de dinheiro é resultado de visão distorcida da realidade. A razão maior seria que nelas circula um largo volume de moeda sonante, dinheiro vivo, que poderia ser mesclado a recursos de origem ilícita. Mas bares, restaurantes, supermercados, floriculturas, farmácias, açougues, papelarias, armazéns, mercearias, empórios, etc. etc., e por que não dizer lavanderias, como todos os varejistas, também trabalham com importantes valores em espécie.

Entretanto, mesmo considerada a primordial essência da natureza humana, existem na sociedade brasileira restrições ao risco e à livre disposição patrimonial em suas expressões mais populares, como jogos, apostas e loterias. Tais manifestações derivam, fundamentalmente, de conceitos de ordem moral e religiosa, ou por eles inspirados. Portanto, não se lastreiam em argumentos racionais, que podem ser contestados, ou não.

A força das Igrejas se baseia na fé, que deve ser cega e incontrastável. De acordo com aquelas organizações, os problemas terrenos e materiais serão solucionados pelas entidades superiores de cada culto. Seja Deus, o Salvador, Santos ou demais seres etéreos que evocam. Se houver fé, as soluções estarão a caminho. E se não chegaram é porque houve pouca fé, e se faz necessário vitaminá-la por novas injeções de ânimo e misticismo.

As casas religiosas e seus representantes não usam lógica, racionalidade ou ciência em suas conjecturas e atuação. Não podem fazê-lo, porque tais condicionantes não admitem questões de fé. Esta a razão que impede as Igrejas de enfrentarem com lucidez os problemas gerados pela compulsão, único mal existente na recreação lúdica, e que atinge percentagem ínfima dos que a utilizam. Ao invés de buscar a causa e agir sobre a mesma, as religiões se concentram nos eventuais efeitos deletérios sobre essa minoria.

Não obstante, a ferrenha oposição religiosa aos divertimentos lúdicos parece encobrir uma competição nada edificante sob o ponto de vista moral. Existe a hipótese ainda pouco estudada que, por trás do repúdio das igrejas ao jogo, ocorra uma ácida disputa pela renda disponível dos cidadãos.

As entidades religiosas repousam não apenas o mero sustento, mas, sobretudo, seu enriquecimento na instituição das colaborações rotuladas de dízimos. O Vaticano construiu seu imenso patrimônio com base em doações de devotos em busca da vida eterna. São inúmeros e bem atuais os exemplos de líderes evangélicos que ostentam patrimônios e negócios milionários oriundos, exclusivamente, das contribuições dos fiéis.

Para as igrejas a dicotomia econômica entre consumo e investimento se reduz às alternativas entre diversão e dízimo. Quanto mais de um, menos do outro. Ora, numa sociedade de pouca afluência como a brasileira, em que a satisfação das necessidades básicas ocupa o centro das preocupações dos cidadãos, o que resta de renda individual será despendido, preferencialmente, em lazer, a menos que a força coercitiva das igrejas conduza o pêndulo para o âmbito da devoção. Daí a renitente oposição religiosa ao jogo e, inclusive, ao consumo etílico. Não se trata de aprimorar a moral da comunidade, mas de obter a maior fatia possível de sua eventual renda disponível.

A dita destruição social e familiar é o biombo usado, sistematicamente, há pelo menos um século, como argumento central pelos que combatem jogos e equipamentos recreativos no Brasil. O raciocínio e a linguagem antidiversão são monocórdios e não tiveram qualquer mudança substancial, ou passaram por inovação, durante todo o século XX. Apesar de tantas transformações vividas pela sociedade brasileira ao longo daqueles 100 anos. Apenas a forma e o estilo semântico, sofreram leves modificações, se adaptando um pouco mais à linguagem atual. Mas a essência da argumentação permaneceu a mesma.

(*) Ney Carvalho é historiador e escritor.


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