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No “Reino das Loterias”.

19/03/2003

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Até parece que estamos vivendo em outro país, uma utopia, ou num reinado da jogatina.
É Loteria Esportiva, Loto, Jogo do Bicho, Sena, Super Sena, Mega Sena, Raspadinha e Raspinha, Loteria Estadual, Loteria Federal, bingos oficiais e não oficiais, cassinos clandestinos e abertos, Baú da Felicidade, Tele-Sena, “Rinha de Galo”, Papa Tudo, Topa Tudo por Dinheiro, Tele-Sorte, corrida de cavalos, etc…
O brasileiro é um sonhador, quer tirar a sorte grande.
Estabeleceu-se uma cultura de jogo, jogatina, a título de diversão (classe média) e a título de solução para os problemas (classes baixas).
Até parece que a sorte está por todos os lados, sorrindo e sendo apresentada nos meios de comunicação e até financiada pelo governo. Parece até legal. Você vai ganhar – Vai mudar de vida – Quem não arrisca não petisca – e outros chavões. E o incauto cidadão continua a jogar e nada acontece, pois ele entra num campo onde as possibilidades de acerto são quase inexistentes. Um em um milhão racionalmente falando, as estatísticas são totalmente desfavoráveis.
Estabeleceu-se o Reino das Loterias, onde o jogo é fácil, está em todas as esquinas, ao alcance de todos e até como solução de todos os problemas, não só diversão e brincadeira.
Mas quem são os “grandes sortudos”, senão aqueles que promovem as loterias, os verdadeiros e únicos ganhadores, porque estão gerindo grandes somas de dinheiro, mercadejando a fé popular e mexendo com o coração das pessoas.
E os trabalhadores brasileiros continuam jogando e jogando, passam a vida acreditando que um dia vão ter a sorte grande. Um em um milhão ou mais. E se por um acaso dos acasos vier a ganhar, receberá junto com o prêmio a carga negativa de inveja e ciúme dos que perderam.
Quando a sociedade e o Poder Público não correspondem às expectativas do cidadão, este se lança na busca da felicidade pelo caminho da sorte. Afinal, pensa realizar-se (casa própria, carro, casamento, viagens).
Entretanto, esperar das loterias a realização dos sonhos inerentes ao ser humano é ilusão, é utopia. O cidadão vai abandonando aqueles valores que engrandecem uma sociedade. O sucesso vem através da dedicação e sob duras penas. O trabalho é fundamental. O cumprimento de nossas funções e deveres no seio da sociedade é a garantia de uma vida melhor. Atalhos não existem, pois, para atingir a melhora social, sonhar com a casa própria, emprego, melhor distribuição de renda e realização, enfim, passa pelo cumprimento de nossos deveres como cidadão e exigência de que o Poder Público cumpra com as suas finalidades de criar melhores condições de renda, trabalho, emprego, habitação, saúde e segurança pública.
O governo não pode existir para incentivar projetos falidos ou desenvolver políticas de criação de loterias, vendendo ilusão ao povo. Os meios de comunicação também cometem charlatanismo ao oferecerem felicidade pela simples compra de loterias. Ademais, vejam no que se transformou a Lei Zico, incentivando os bingões irregulares, onde pessoas idosas e aposentadas vêm deixando suas economias, porém o dinheiro não é aplicado nos desportos. E a Caixa Econômica Federal, ao invés de estimular a aquisição da casa própria, traz loterias. Até os Correios vendem loterias. Só está faltando igreja vender bingo.
Verdadeiramente, o jogo pode até ser uma diversão para aquele cidadão despreocupado, mas infelizmente, para a maioria dos cidadãos, a atitude de jogar traz contida em si mesma uma esperança de sorte grande, de solução (equivocada) para os problemas de felicidade.
Todavia, é atitude irracional, fezinha sobre coisa incerta, pela estatística totalmente desfavorável. É busca utópica de felicidade, como se a felicidade estivesse inteiramente ligada à sorte grande e pudesse ser encontrada dentro de um baú.
Ao que parece, o incauto cidadão ainda não se conscientizou disso. Também pudera, se os meios de comunicação de massa (televisão) tanto incentivam, e até, oficialmente, o governo banca e promove concursos lotéricos.
É de se concluir que, no Reino das Loterias, quase só existem perdedores, pois, levando-se em conta o número de participantes, raramente alguém ganha. Logo, só existem perdedores.
Mas, o que é verdadeiramente ganhar na loteria, senão a condição de cidadão justo e honesto, chefe de família, que goza de admiração das pessoas sérias. Ter saúde e ser dotado de talentos e dons que o conduzem a auxiliar o próximo. Ter como patrimônio, apesar das dificuldades, a moral e a ética. Andar de cabeça erguida, ainda que o grupo de homens desonestos seja o grupo maior na sociedade. Ter paz como um filho de DEUS.
Portanto, se você tem tudo isso, já ganhou na loteria ainda que não saiba. Se não tem tudo isso, então ainda não ganhou na loteria, ainda que tenha sido premiado.
Voltando à realidade, senhores, façam suas apostas, o jogo continua.
Roberto Antonio Massaro é juiz de direito titular da capital, reeditando esse artigo, uma vez que permanece atual.
Paraná Online – Roberto Antônio Massaro