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Moedas falsas para enganar caça-níqueis.

10/06/2002

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As técnicas para se enganar máquinas caça-níqueis estão em plena evolução. Falsos moedeiros vêm introduzindo em São Paulo um novo “simulacro” de moeda. Eles transformam, artesanalmente, a de R$ 0,1 em R$ 0,25, além de confeccionar cópias da de R$ 0,5. “Não se trata de falsificação, porque a intensão não é imitar as moedas perfeitamente, mas apenas criar um simulacro para fraudar as máquinas”, explica o titular da delegacia de estelionato do Deic, Manoel Camassa, um apaixonado por moedas, autor do Catálago de Cédulas Brasileiras e barraqueiro na feirinha do Masp.
O simulacro é feito a partir de uma “capa” de liga metálica, que envolve a moeda de R$ 0,1 e a transforma num outro objeto, com diâmetro e peso iguais à de R$ 0,25 – aceita pelas máquinas. “É uma pequena obra de arte. Difícil de fazer, com acabamento manual. E tudo isso em troca de um valor tão pequeno”, conta Camassa.
Já a de R$ 0,5 constitui-se num mistério. Feita a partir de uma chapinha metálica lisa, avermelhada, de mesmo diâmetro da moeda original, com borda semelhante, porém mais leve, não foi aceita pelas máquinas quando testada.
Como ela se infiltra no mercado? “Recebi a moeda de troco, junto com outras.
Só depois percebi o engodo”, conta o corretor de valores Alfredo Giangrande, apresentando sua moedinha. “Acho que ela dá sorte.”
O golpe vem de longe. A idéia de fraudar telefones públicos, fliperamas, máquinas de café e guloseimas atravessa décadas, desafiando a imaginação e utilizando-se, agora, até da metalurgia.
O golpe era aplicado com as fichas de telefone. Soldava-se um araminho na borda para enfiá-las nos orelhões. Falava-se quanto tempo queria e, depois, puxava-se a ficha de volta para que ela não fosse engolida. O artifício – moda nos anos 70 – era muito aplicado por brasileiros em visitas ao exterior, para poderem papear gratuitamente com seus amigos do lado de cá.
Com os fliperamas – bisavós dos videogames -, pegava-se os chumbinhos usados para o balanceamento de pneus de carros (dos outros), martelava-se bastante e recortava-se a circunferência exata das fichas. Depois, bastava enfiá-las nas máquinas e passar o dia todo jogando. Essas foram substituídas por outras mais sofisticadas, moldadas de acordo com as originais, produzidas em forminhas de gelo. Derretiam no bolso.
“O crime com moedas adulteradas configura-se como furto mediante fraude, prevendo uma pena de 1 a 4 anos de prisão”, avisa o delegado Camassa. Talvez os dois ou três casos que um bingo da região da Rua Augusta flagrou – usuários de videogames tentavam colocar moedas falsas nas máquinas e foram expulsos pelos seguranças – não tivessem acontecido se os autores soubessem do risco que corriam. “Os bingos dos Jardins atendem uma camada de clientes que não cometeria um tipo de delito como esse. Além do mais, 99,9% de todas as máquinas aceitam apenas cédulas”, diz o gerente.
Não é o que acontece com a Dab Coffee Machines, uma das líderes de mercado em distribuição automática de cafezinhos. “Recebemos entre 100 e 200 moedas falsas por mês”, conta Carlos Porto, diretor da empresa.
Esse prejuízo não chegou a suscitar nenhuma espécie de inquérito. “Nós jogamos as moedas fora ou as guardamos de lembrança”, revela.
“Simular moedas de valor tão baixo ou é farra de estudantes, ou artifício de camadas mais humildes da população, sendo um ato criminoso, mas nunca um meio de vida que proporcione alguma rentabilidade”, pondera Camassa. Ele explica que carregar uma moeda dessas no bolso não configura crime, mas a tentativa de sua utilização comercial, sim. Segundo Porto, o prejuízo da fraude é dividido entre a empresa fornecedora das máquinas e o usuário. “Como a moeda entra na máquina, também pode acabar saindo como troco”, lamenta.
Jornal da Tarde – SP – ARMANDO SERRA NEGRA