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Loteria: qual é a primeira coisa que devo fazer caso ganhe o prêmio?

02/06/2020

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André Rocha*

Respondo rápido: nada. Poderia terminar a coluna aqui, após 4 letras. Para não ser chamado de charlatão, vou me estender um pouco mais. O leitor mais atarefado já pode abandonar o texto. O principal já foi dito. Mas se quiser continuar a bordo, ficarei satisfeito.

No mercado, reza a lenda que um grupo de empregados de um grande banco fazia semanalmente uma fezinha na Mega-Sena. A história é antiga. Talvez tenha sido Loto ou, quem sabe, loteria esportiva, mas isso não vem ao caso.

Toda sexta o responsável trancava o bilhete na sua gaveta. Mas, ele não sabia, outros também tinham a chave. Fizeram uma cópia adulterada do bilhete com os números sorteados e substituíram o original.

Ao chegar e conferir os números, o funcionário entrou em êxtase. Gritou em pleno salão: “acabou! vou me embora! Cadê o chefe, vou mandar ele ….!”. Os colegas assustados tentaram explicar a brincadeira, mas a euforia, misturada a mágoas passadas, era tanta que nada conseguia contê-lo.

A passos firmes, foi à sala espelhada onde o chefe fazia reunião com parte da equipe. O infeliz ganhador, em frente ao vidro, contraiu todos os dedos, levantou os braços e esticou apenas os dois dedos médios.

Depois de muito sacrifício, conseguiram detê-lo. A essa altura, o leitor deve achar que o banco o demitiu. Que nada. Lendas não tem fins óbvios. Ele continuou no emprego. Ficou tão envergonhado que definhou dia a dia. Cada vez mais melancólico, pediu demissão alguns meses depois.

Muitos anos após, fui trabalhar nesse banco e um funcionário, já veterano, confirmou a história. Como não sou estraga prazeres e não ganho nada em desconstruir a lenda, fico com a confirmação do colega.

O que essa história ensina? Em momentos de euforia, ficamos mais confiantes. E a autoconfiança é uma linha tênue para a arrogância. Tendemos a agir por impulso e assumir mais riscos. Logo, a possibilidade de fazer besteira é alta. O funcionário do banco é um exemplo. Por isso, logo no início, respondi à pergunta do título: não faça nada.

Tire umas férias. Nos primeiros 15 dias viaje com a família. No tempo restante, faça contas. Veja se o prêmio lhe garantiu a independência financeira ou apenas lhe trouxe uma segurança maior.

Já expliquei em post anterior que essa conta é fácil de fazer. Requer apenas duas variáveis: os juros reais (já descontada a inflação) e as despesas mensais. Qualquer calculadora do celular mais fajuto faz essa operação. Não é preciso recorrer ao engenheiro da Nasa.

Caso você consiga viver de rendimentos para toda a vida, separe uma parte para quem você queira ajudar: pais, irmãos, primos, tios, amigos. Diversifique seus investimentos com a parcela restante. Dependendo do montante, invista no exterior também.

Agora que o básico já está arrumado, se pergunte sobre o que você realmente gostaria de fazer. O que lhe dá prazer? Você tem conhecimento para tornar esse negócio rentável ou é apenas um hobby?

É natural que após ganhar na loteria você fique otimista (se isso não ocorrer, procure um psiquiatra). Esse excesso de confiança pode lhe levar a querer abrir um pequeno negócio, por exemplo. Você não se importará com a estatística de que 65% desses empreendimentos desaparecem depois de cinco anos nos EUA.

Como você se considera acima da média, não cometerá o mesmo erro dos 65% de fracassados. Mas tome cuidado com a falácia do planejamento. Por mais que você seja diligente na análise, existem variáveis que você não controla como a concorrência, os juros e o câmbio, por exemplo. Logo, tente ser bastante conservador nas premissas. Observe o valor que o negócio atinge mesmo em cenários mais desafiadores. Estresse o modelo.

No livro “Inside the Investor`s Brain”, Richard Petterson mostra como pessoas felizes tomam decisões: levam menos tempo para decidir (por isso, as férias são fundamentais), consideram poucos aspectos para decidir, veem menos riscos e checam menos informações. O roteiro para o fracasso.

Caso a bolada seja menor do que a necessária para a independência financeira, os cuidados devem ser redobrados. Quanto tempo esse dinheiro dura? Vale realmente a pena pedir demissão? O trabalho está tão ruim?

Aqui você deve se preocupar primeiro na constituição da reserva de emergência. Ela é calculada, multiplicando-se as despesas mensais por 12, o que lhe dará folga financeira de um ano caso perca o emprego ou tenha problemas de saúde.

Leve em conta que, provavelmente, seus gastos aumentarão com o ganho do prêmio. Logo, será necessário revisar para cima a reserva de emergência, mesmo que você já possua uma.

A chance de ganhar na Mega-Sena é de 1 em 50.063.860 ou 0,000002%. Logo, você deve ter considerado esse artigo inútil. Mas receber uma herança ou uma promoção não é tão difícil assim. Pensar mil vezes antes de agir vale nesses casos tanto como após ganhar na loteria.

(*) André Rocha é analista de ações certificado pela Apimec e editor do Blog do André Rocha no Valor Investe.