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Loot boxes: Senado australiano adia divulgação do resultado de inquérito

10/10/2018

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As autoridades brasileiras deveriam ter uma preocupação especial com as loot boxes

O Senado da Austrália anunciou que o relatório do inquérito à indústria de videojogos, tendo as loot boxes como preocupação principal, será divulgado no próximo dia 17 de outubro. O anúncio constitui um adiamento em relação à data inicial prevista para esta divulgação, que deveria ter acontecido esta semana. De acordo com o site australiano Techly, o Senado está procurando mais provas, ouvir mais testemunhas e promover algumas reuniões antes de publicar o relatório (será publicado online).

O caso da Austrália e a questão geracional

A Bélgica e a Holanda vêm se destacando na rapidez com que vêm reagindo contra as loot boxes, criando problemas sérios a várias desenvolvedoras querendo oferecer seus jogos nesses países. O caso da Austrália é especial, pois a ação do Senado australiano tem vindo de um senador de apenas 23 anos.

Jordon Steele-John é membro do partido “Greens” (Verdes) e é um dos rostos do combate político em favor das pessoas com deficiência física ou de locomoção. Como é fácil de adivinhar, ele tem o “título” de senador mais jovem de sempre em seu país. Além disso, ele é também a força por trás desse inquérito do Senado da Austrália às loot boxes e às desenvolvedoras.

Logo no início desse escândalo (quando a mídia internacional, incluindo a brasileira, questionou a forma como as loot boxes estavam sendo usadas para monetizar os mais importantes videojogos), Steele-John foi uma das primeiras vozes a se erguer. Embora tenha tido pouca visibilidade fora de seu país, ele participou de uma extensa reportagem de um dos mais importantes jornais da Austrália sobre o tema.

Precisamente por ser tão jovem, Steele-John é ele mesmo um “gamer”, que já nasceu e cresceu numa cultura de videojogos sempre presentes e disponíveis. Assim, falando com conhecimento próprio, rapidamente ele identificou o problema e percebeu que a indústria dos jogos eletrônicos precisaria ser regulada. Em suas palavras, seus colegas do Senado ainda não tinham dado importância porque, para eles, os videojogos “pararam no tempo do Pacman”.

O exemplo de Steele-John vem lembrar como, em política e especialmente em democracia, as experiências pessoais dos representantes do povo são tão importantes. Não só naquilo que parece mais importante, mas também naqueles detalhes que podem passar ao lado. A diferença de geração entre a maior parte dos políticos e a maior parte dos usuários de videojogos ajuda a que eventuais problemas sociais possam não ser considerados como urgentes e importantes. Não porque os políticos tenham opinião formada sobre isso, mas por simples desconhecimento.

Que bom para os australianos terem um Millennial (ou já um pós-Millennial, se tiver classificação para isso) no Senado que está atento a estas questões. Que bom, mesmo, para a democracia australiana.

A questão das loot boxes

O tema das loot boxes tem sido bastante falado aqui no Arkade e já não é novo. Como já referimos, a oferta de itens randomizados a troco de pequenos pagamentos (as “microtransações”) vem sendo referenciada pelas autoridades de vários países como uma forma de jogo de azar. Esses “pequenos pagamentos” podem dar origem a grandes perdas, pois funcionam como um verdadeiro caça-níquel em que o jogador paga, paga e volta a pagar de novo. E o pior de tudo é que, ao contrário do que acontece em um cassino (onde os jogadores devem saber o que estão fazendo e sabem que estão ali para apostar na sorte), em um videojogo isso não acontece. Os usuários querem jogar um videogame e vão gastando dinheiro em algo que deveria ser secundário.

No mais, há outros pontos que os cassinos (físicos ou online) saem a ganhar na comparação com as desenvolvedoras de jogos eletrônicos. Primeiro, os cassinos reservam a entrada ou o acesso a maiores de idade, o que não acontece com os jogos. Depois, os cassinos e as plataformas eletrônicas de jogos obedecem a regras (internacionais ou locais) de proteção dos usuários contra o jogo excessivo. Nos videojogos, como ainda não chegámos nesse nível, não existe a mesma preocupação.

Entretanto, ela vai sendo construída, à medida que vários países vão reagindo contra esse abuso das desenvolvedoras.

E quanto ao Brasil?

Essa consciência está talvez faltando um pouco no Brasil. Apesar de se falar sobre o tema, as loot boxes não parecem ser uma preocupação para qualquer autoridade nacional. E isso em um país que até proíbe os jogos de azar e onde, por isso, deveria ter uma preocupação especial com esse tipo de atividade. Por outro lado, o fato de os cassinos online funcionarem sem qualquer restrição já deixa indicar que a relação do Brasil com os jogos ficou imobilizada em 1946, o ano da proibição dos cassinos; é como se a lei atual pensasse que ainda estamos na década de 1940.

Que diferença para o caso australiano. Até lá, esperemos que os usuários mais esclarecidos façam seu papel e tenham muito cuidado na forma como recompensam as desenvolvedoras por seus serviços. (Arkade)