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Legalização dos jogos no Brasil: Devemos seguir bons exemplos?

23/07/2002

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Desde pequenos somos acostumados a ouvir que devemos seguir bons exemplos para ter sucesso na vida. E sempre penso nisso quando caminho pela Strip, a famosa Las Vegas Boulevard, ou quando entro em cassinos de outros países e penso que deveríamos seguir esses bons exemplos também no Brasil, oferecendo uma atividade a mais para os visitantes do exterior que chegam ao país para negócios ou para passear por belas paisagens que nossa natureza oferece aos turistas. E foi lendo a revista Veja, em meados de junho, que me deparei com o artigo “O país da jogatina”, do jornalista José Eduardo Barella, que faz uma análise ­ bastante positiva, diga-se de passagem ­ do impacto da indústria do jogo nos Estados Unidos.
Oras, devemos sim seguir o bom exemplo americano e permitir a abertura de cassinos no Brasil. Não pelo jogo em si, mas pelo seu reflexo na economia e no desenvolvimento do turismo em nosso país. Será que devemos nos igualar aos pouco menos de dez por cento de países extremamente pobres ou islâmicos, que não possuem cassinos, ou às mais de 170 nações que regulamentaram a atividade em seus territórios?
Cassino, diferente do que é apregoado por mentes retrógradas, não é um ambiente de prostituição, de incentivo às drogas ou lugar para que “pais de família percam suas economias”. Cassino é uma oferta de serviço de entretenimento com alta capacidade de geração de empregos e impostos, desenvolvimento do turismo e das artes. Las Vegas, por exemplo, é um dos mais importantes palcos de shows do planeta, possui exposições de arte permanente e até mesmo uma universidade do jogo. E tudo isso leva riqueza aos cofres públicos, sem que os governos tenham de investir em obras, dar subsídios ou abrir mão de impostos para a instalação desse tipo de estabelecimento nas famosas guerras fiscais que vemos os estados brasileiros promoverem para levar aos seus domínios montadoras de automóveis ou indústrias petroquímicas, que geram seis ou sete mil empregos.
Para se ter uma idéia, mais de 35 milhões de pessoas estiveram em Las Vegas em 2001, deixando nada menos que US$ 7,63 bilhões aos cofres públicos apenas em impostos e taxas sobre o jogo. São valores incríveis, até pelo fato de que o produto que gerou tanta riqueza nada mais é do que o sonho, a fantasia e a vontade de jogar e ganhar nos cassinos.
Com mais de 126 mil quartos na cidade, os hotéis e motéis de Las Vegas garantiram no ano passado uma ocupação média de 88,9%, contribuindo fortemente com receitas para os cofres públicos da Capital Mundial do Entretenimento. O impacto da indústria de turismo na cidade foi de US$ 31,5 bilhões em 2000, crescendo para US$ 31,6 bilhões no ano passado. É um bom exemplo ou não?
Li recentemente nos jornais que em Israel ­ que também não permite cassinos ­ poderá surgir uma nova modalidade de cassino. Assim como existem barcos-cassinos em águas internacionais, naquele país surgiu a proposta de aviões-cassinos, em que as aeronaves levantariam vôo do Aeroporto Ben Gurion e, depois de sair do espaço aéreo israelense, abririam suas mesas para o jogo. Cara mas interessante forma de mostrar que também lá existe um mercado reprimido e pronto para gerar empregos. Nem que seja para crupiers-aeromoças.
Voltando à matéria da Veja, o jornalista cita um dado que não deixa de ser interessante. “Até meados da década de 80, Council Bluffs era apenas mais uma cidade desconhecida no Estado de Iowa, nos Estados Unidos. Sem maiores atrativos, sobrevivia em meio à economia agrícola do Meio-Oeste americano. Hoje, graças aos três cassinos que lá operam, o município transformou-se em motivo de orgulho para os 58.000 habitantes. Recebeu 10 milhões de visitantes no ano passado, mais que o número de turistas que passaram pelo Rio de Janeiro.”
Como se vê, a atividade é um fator de atração de turistas, a despeito dos opositores da reabertura de cassinos no Brasil, que dizem que a nova atividade não atrairia tantos turistas assim. A pergunta que fica depois da análise da Veja é: será que 10 milhões de pessoas foram para Council Bluffs para comprar batatas e espigas de milho? Não, foram para a cidade porque nela havia tranqüilidade e entretenimento de boa qualidade. Imaginem o Rio de Janeiro, tão maravilhoso que é, com bons cassinos operando e oferecendo, além do jogo, shows de boa qualidade. Ou tantas outras cidades incríveis no Norte, Nordeste, serras gaúchas. Não seríamos uma versão brasileira de Las Vegas ou de Monte Carlo, que se consagraram de maneira diferente no quesito cassino. Mas teríamos a oferecer aos visitantes uma atração a mais.
Neste ponto, gostaria de citar um dos grandes incentivadores da Revista Games Magazine, Ciro Batelli, a mais importante autoridade brasileira no assunto cassino: “O Brasil tem praias com todo tipo de onda, com areia de várias cores e tipos, regiões serranas, o Pantanal, a Floresta Amazônica. Bem organizado, o setor de cassinos poderia levar até o Brasil investimentos vultosos que gerariam milhares de empregos e uma arrecadação de tributos nada desprezível”. Pois é, amigo Ciro, onde está a sensibilidade de nossos governantes para perceberem isso ­ ou para não serem influenciados por falsos profetas anunciando a chegada do apocalipse se os cassinos forem reabertos?
Não se aplicaria ao Brasil, visto que as situações são bastante diferentes, mas nos Estados Unidos os cassinos podem ser explorados por comunidades indígenas à partir de uma decisão da Suprema Corte, em 1987, como bem apontado pela revista que me inspirou a escrever este artigo. “Os aborígines aproveitaram o filão e hoje controlam cerca de 200 cassinos, na maioria localizados fora das áreas urbanas e administrados pelas próprias comunidades. Não têm o glamour dos megacassinos de Las Vegas ou de Atlantic City, mas movimentam 10 bilhões de dólares por ano. Boa parte do público é composta de moradores de cidades próximas.” Nossos yanomamis, tupis e outras nações indígenas foram de tal forma dizimados e aculturados que hoje vivem numa pobreza mais do que absoluta e não teriam condições de administrar cassinos. Mas poderiam ser alvo de benefícios gerados pelos impostos do jogo em nosso país. Assim como os Estados Unidos resgatou um pouco a dignidade de seus nativos, poderíamos fazer um pouco pelos nossos.
Aliás, nos Estados Unidos, de acordo com a Veja, “o jogo foi a tábua de salvação dos nativos, pois as reservas são enclaves de pobreza no país mais rico do mundo, com altos índices de desemprego e alcoolismo.” A situação mudou tanto que a revista aponta o cassino indígena Foxwoods como o maior do gênero, “fruto de uma parceria da tribo Mashantucket Pequot com o magnata sul-africano Sol Kerzner. Localizado a duas horas de carro de Nova York, o Foxwoods tem três hotéis, trinta restaurantes, teatro, centro de convenções e 12.000 funcionários. São centenas de mesas de jogo e 6.400 máquinas caça-níqueis à disposição dos apostadores. A poucos quilômetros de distância, os habitantes da reserva de Mohegan Sun administram, também com o magnata sul-africano, outro complexo gigantesco. Além de um cassino luxuoso, Mohegan Sun conta com hotel, shopping center, restaurantes e uma atração à parte para quem não joga ­ o maior planetário do mundo, com capacidade para 10.000 pessoas. Foxwoods e Mohegan Sun movimentam juntos 2 bilhões de dólares por ano em apostas, mais que a soma do que arrecadam os dez maiores cassinos de Atlantic City.”
Aqui está mais uma demonstração de que os indígenas aproveitaram o conselho de seus ancestrais de seguir bons exemplos. Viraram excelentes empreendedores do setor de entretenimento, estão ricos, geram riqueza e milhares de empregos.
Muitas vezes assistimos filmes de gângsters americanos ganhando dinheiro com jogo, drogas, bebida e prostituição nos cassinos. Na verdade, essa era a realidade do país até o início dos anos 70. De lá para cá, muita coisa mudou, como já apontamos em outras matérias da Games Magazine sobre a história de Las Vegas. Hoje, grandes corporações americanas são as proprietárias de cassinos não só em Las Vegas, mas em todo o país. Expulsaram a máfia, levaram transparência ao setor e a Casino Control Commission, entidade responsável pela conceção de licenças para cassinos, examina a fundo a vida de quem quer abrir um estabelecimento do gênero nos EUA. Crupiers, funcionários administrativos e até mesmo motoristas de táxi têm sua vida examinada antes de serem admitidos num cassino americano. Hoje, praticamente todos os cassinos americanos têm suas ações negociadas e cotadas na NYSE, a bolsa de valores mais importante do mundo, o que demonstra a seriedade que o setor alcançou depois que a máfia saiu do negócio.
A matéria da Veja termina com um dado interessante: “A febre nacional atinge até os soldados americanos que servem no exterior. Eles torram 1 bilhão de dólares por ano nas 7.000 máquinas caça-níqueis e de videopôquer instaladas em 94 bases militares americanas espalhadas pelo mundo. A atividade gera um lucro anual de 125 milhões de dólares para os cofres do Pentágono. No país da jogatina, até o governo ataca de crupier”.
E o Brasil continua brigando pelas migalhas de uma CPMF que não gera empregos, não atrai turistas e, pior, onera a produção e o custo Brasil. Vamos cair na real, senhores parlamentares?
(*) Gildo Mazza é jornalista e editor da Games Magazine