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“Jogo do bicho é coisa de velho. Meu pai jogava de manhã, de tarde e de noite. Jogo de vez em quando”

07/10/2015

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O que levou o senhor a defender a legalidade dos jogos de azar?
Por entender que o jogo ilegal atende poucos. Nunca tive nenhum centavo de ‘bicheiro’ (que explora o jogo do bicho) em minhas campanhas, de ‘maquineiro’ (donos de máquinas caça-níqueis), de cassino, mas entendo que o Brasil perde muito sem a legalização. Enquanto o país perde, deixa de arrecadar. Quem está ganhando são poucos. Em 1988, fui eleito pela primeira vez com a legalização do jogo, e era só o bicho que existia. Em vez de pegar o cambista (que anota os jogos), tinha que pegar o banqueiro (dono do jogo). E aí os banqueiros tinham os candidatos deles, e eu era o candidato do cambista com carteira assinada, com fundo de garantia, com 13º salário, reconhecido como trabalhador que é.
Como os jogos deveriam funcionar na legalidade?
Acho o seguinte: máquina (caça-níqueis) existe em Belo Horizonte e tem que continuar tendo, legalizada. Nas lojas haverá fiscalização, não vai entrar menor de idade, e todo mundo que entrar para jogar vai ter de ser identificado. E ela (máquina) tem de ser online. Funcionando hoje no Brasil inteiro na clandestinidade, o bingo tem de ser legalizado da mesma forma: toda pessoa terá que se identificar. Você vai ter um cadastro para identificar jogadores compulsivos. Vai afastar a marginalidade, podendo ser um ambiente sadio para todos.
Os cassinos também estão dentro dessa proposta?
Existe a necessidade do funcionamento dos cassinos, a partir do momento em que as pessoas pegam o voo aqui e vão para outros países. Hoje temos condição de ter R$ 22 bilhões em arrecadação por ano com o jogo no país, mas um jogo legalizado e da seguinte forma: não pode ter cassino nos grandes centros. Não podemos ter um cassino em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, em São Paulo. Cassino tem que ser nas estâncias hidrominerais para que o trabalhador da capital não pegue seu salário, que acaba de receber, e gaste-o. E isso vai acontecer. Vamos levar o cassino para Araxá, para São Lourenço, para estâncias que têm atrativos.
Quem comanda os jogos em Minas tem ligação com políticos e são financiadores de campanha?
Não. Aqui, em Minas, o jogo do bicho nunca me deu um centavo. Pode procurar, olhar com quem quiser. Não tenho um centavo do jogo do bicho e sempre defendi a sua legalização. O jogo do bicho em Minas é jogo de velho, e os velhos estão morrendo. O meu pai jogava no bicho todo dia, de manhã, de tarde e de noite. Eu jogo de vez em quando aqui, na porta da Assembleia, e meu filho não vai nem saber o que é isso. O jogo do bicho vai acabar. Aqui ninguém mata ninguém, não tem crime organizado, não tem ligação com droga. Aqui, o bicheiro, todo mundo conhece.

O bicheiro aprova a legalização dos jogos? Ele não perderia o controle?
Não perde controle nenhum. A legalização é boa para o banqueiro e para o cambista, que vai ter o direito trabalhista. E o bicheiro, se não se modernizar, vai perder.
Mas quem comanda o jogo do bicho não é o mesmo que controla outros jogos?
Não, o bicheiro foi procurado quando as máquinas (caça-níqueis) chegaram aqui. O pessoal do jogo do bicho nunca acreditou nesse negócio sem ser o do bicho. Eles estão acostumados ainda com o papel. E outro detalhe, não existe forma de legalizar o jogo do bicho sem ser com a iniciativa privada. Quem explora – e isso eu defendo – deve continuar explorando, porque senão vamos continuar tendo jogo ilegal. (O Tempo – Angélica Diniz – Belo Horizonte – MG)
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Jogo do Bicho: Bancas funcionam livremente
Segundo uma fonte ligada ao jogo, é a polícia que explora parte dessas casas de apostas
A proibição dos jogos de azar no Brasil nunca foi impedimento para que jogadores interessados na prática tenham acesso a lojas e salões de apostas. Basta andar pelas ruas do centro de Belo Horizonte e também na região metropolitana para encontrar inúmeras bancas, principalmente de apostas no jogo do bicho.
Algumas até se preocupam em colocar na fachada a indicação de que a atividade é de outro tipo de comércio, mas a maioria funciona livremente, sem qualquer pudor. Foi isso que a reportagem de O TEMPO comprovou na última semana.
Segundo uma fonte ligada ao jogo, é a polícia que explora parte dessas casas de apostas. “As bancas de jogo do bicho e os bingos funcionam com a permissão da polícia. Existe um bingo embaixo de uma igreja, e os agentes é que exploram”, denuncia a fonte, referindo-se a uma casa de apostas no bairro Colégio Batista, na região Leste da capital.
Segundo o procurador André Ubaldino, chefe da Promotoria de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), organizações criminosas sempre exploram atividades lucrativas, mas ele diz desconhecer o envolvimento da polícia na prática ilegal em Minas. “São casos isolados de um ou outro agente”, afirmou.
No coração da Savassi, na região Centro-Sul da capital, outro exemplo de ilegalidade. Sem qualquer preocupação, um “bicheiro”, ao perceber a presença da equipe de reportagem, entregou: “Isso aqui é bicho, é contravenção”. (O Tempo – Angélica Diniz – Belo Horizonte – MG)