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Jogo do Bicho completa hoje 127 anos de operação nesta quarta-feira

03/07/2019

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Criada originalmente como Jogo das Flores, a modalidade ‘Loteria de Números’, que foi apresentada ao Barão de Drummond pelo mexicano Manuel Ismael Zevada

Nesta quarta-feira, dia 3 de julho, o jogo do bicho completa 127 anos de operação. O primeiro sorteio ocorreu num domingo, em 3 de julho de 1892 e, no dia 3 de outubro de 2019, serão 78 anos de proibição pela Lei de Contravenções Penais. A legislação proibitiva não alterou o cenário de ilegalidade do jogo no Brasil, muito pelo contrário.

Mesmo proibido, o ‘brasileiríssimo’ jogo do bicho, se alastrou pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro e atingiu toda a população. Criada originalmente na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro como ‘Jogo das Flores’, a modalidade ‘Loteria de Números’ foi apresentada ao Barão de Drummond pelo mexicano Manuel Ismael Zevada, com o objetivo de obter recursos financeiros para o Jardim Zoológico.

Depois que o Marechal Deodoro da Fonseca, derrubou a família imperial do poder e Proclamou a República, Barão de Drummond perdeu apoio do governo e ficou com pouca verba para manter seu Jardim Zoológico e acatou a ideia da loteria. Essa loteria entregava um bilhete a cada frequentador do zoo com a estampa de um bicho entre os 25 animais do zoológico e um número. Todos os dias, às 17h, um pano era descido revelando o ‘bicho do dia’. Quem tivesse o tal bicho em seu bilhete, ganhava vinte vezes o valor da entrada. O cliente pagava 1$ (réis) para entrar e sai com 20$ (réis) caso o animal fosse o mesmo da estampa do seu ingresso.

Sobre a preferência pelos bichos, o Barão disse na época ao Diário do Commércio: “Flores são lindas. Mas animais são subúrbios do homem, nossos parentes”.

Foi um sucesso, virou mania naquela época. Tinha gente que ia ao zoológico só por causa do prêmio. Os bondes para Vila Isabel, principalmente no domingo, ficavam superlotados.

Primeiro bicho foi avestruz

O primeiro sorteio ocorreu num domingo, em 3 de julho de 1892. O bicho sorteado foi o avestruz. A reportagem do Diário do Commércio do dia seguinte noticiou o fato:

   “Realizou-se ontem, como tinhamos anunciado, a inauguração da nova empresa do Jardim Zoológico.

   Às 3 horas das tarde partiram do largo do Rocio em direção a Vila Isabel, dois bonds especiais dessa companhia, levando os convidados daquele empresa, sendo precedidos de uma banda de música. Chegados ali foram os convidados recebidos pela administração do Jardim, que gentilmente acompanhou-os na visita geral.

   Às 5 horas desceu a caixa que continha a figura do animal que dominava o dia, de acordo com o programa. O avestruz foi o animal vencedor e que deu aos donos dos bilhetes respectivos os 20$ de prêmio.

   Após a vitória do avestruz a vitória do estômago. Deu-se começo pois a um lauto e profuso banquete de 100 talheres, havendo por esta ocasião brindes de saudações recíprocas.

   À festa compareceram muitas distintas senhoras, representantes da imprensa e outros muitos convidados.” (Diário do Commércio, 4 de julho de 1892)

Proibição do jogo

Charge publicada na Revista Illustrada de janeiro de 1895, com a legenda: “Todos jogam, os empregados, os cozinheiros e até as crianças”

Com a proibição do jogo em 1895, e a morte do Barão de Drummond em 7 de agosto de 1897, os contraventores assumem a operação do jogo do bicho, que começaram a organizar jogos em armazéns e botequins e era a única maneira dos menos favorecidos, ganhar um dinheirinho extra.

O crescimento do jogo se deu porque ele é a cara da população mais pobre. Veja bem, o jogo fomenta o imaginário da sorte, a ilusão de que uma hora você ganha “só ganha quem joga”, aquela esperança de pobre de que a vida está aguardando o momento certo para sorrir brilhante e o misticismo de interpretação de sonhos. Isso criou uma ligação muito próxima entre o jogo e a população, essa informalidade, a coisa do apontador, muitas vezes, ser um amigo da vizinhança. Depois veio a relação quase marital entre jogo do bicho e carnaval. O jogo do bicho ganhou aprovação popular, dando-lhe legitimidade social até os dias de hoje.

Origem da ligação com o carnaval

Se a origem do jogo do bicho remonta os tempos do Barão de Drummond, a aproximação do bicho com o carnaval vem um pouco depois, na década de 1930 com Natalino José do Nascimento. Natal da Portela, o homem de um braço só da escola de Paulo, Rufino e Caetano, teve infância pobre, mas chegou a ser funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Natal da Portela, o homem de um braço só da escola de Paulo, Rufino e Caetano, teve infância pobre, mas chegou a ser funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil. Devido a um acidente nos trilhos, onde perdeu o braço direito, foi demitido por invalidez depois de seis anos de serviços prestados. Isso o levou a viver de alguns biscates até começar como apontador do bicho. Sua escalada foi rápida e notória até chegar a banqueiro do jogo do bicho em Madureira.

Essa postura de herói contraventor não só elevou Natal a um status de benfeitor da região de Madureira como mostrou a outros bicheiros que poderiam ganhar a população pelo mesmo filão. A partir de Natal, vários outros bicheiros seguiram os caminhos deixados por Natal e começaram a tradição de escolas profissionalizadas.

Raízes profundas

Criou-se uma ligação muito próxima entre o jogo do bicho e a população, essa informalidade, onde o apontador ser um amigo da vizinhança

Em 1911, o jurista e acadêmico José Macedo Soares, observou que o jogo se radicara a tal ponto nos hábitos sociais do brasileiro que era impossível erradicá-lo pela lei e repressão policial. O conceito da manifestação do jurista de 108 anos atrás nunca esteve tão atual.

“O jogo proliferou e criou raízes tão profundas, que não será certamente a golpes de lei ou de arbitrariedades policiais que o poder público poderá extirpá-lo dos nossos costumes”, comentou.

Até os dias de hoje

Atualmente, cerca de 80% das apostas do jogo do bicho são realizadas através de POS ou tablets, mas ainda ‘vale o que está escrito’

Em 3 de outubro de 1941, o Decreto-Lei nº 3.688, tornou o jogo “contravenção penal” e as apostas cresceram mais ainda.

Estima-se que diariamente 20 milhões de brasileiros fazem uma fezinha no jogo do bicho e, a sua legalização, seria lucrativa para o Estado e para a sociedade, já que livraria milhões de brasileiros do constrangimento de serem considerados contraventores, e que passariam a exercer atividade lícita e socialmente produtiva.

Apesar de ilegal e clandestino, o jogo do bicho continua vivo como uma das mais populares e onipresentes tradições culturais brasileiras.

Seguindo a tendência de outros países, a legalização desta modalidade deveria garantir a manutenção desta modalidade com os atuais operadores. O jogo do bicho tem peculiaridades próprias que devem ser levadas em conta na sua legalização: jogo bancado com riscos e com muita capilaridade. Além disso, o Estado teria dificuldades em fazer concorrência com uma modalidade que está em operação há muitos anos no Brasil.

Atualmente, cerca de 80% das apostas do jogo do bicho são realizadas através de POS (do inglês: Point of Sale ou Point of Service) dispositivos semelhantes as máquinas de pagamento de cartões de crédito ou em tablets. Mesmo em outra plataforma, ainda ‘vale o que está escrito’.