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Jogadores lotam bingos que funcionam livremente em BH

27/05/2019

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Pressão. Repórteres se passaram por jogadores; desconfiado, gerente aborda os desconhecidos

A proibição para os jogos de azar no Brasil existe há mais de meio século. Exatamente há 68 anos, quando foi criada a Lei de Contravenções Penais. Mas, mesmo diante da repressão exercida pelas autoridades, as casas de jogos ainda funcionam livremente. Em Belo Horizonte, bingos, por exemplo, atuam de forma clandestina em pontos discretos da cidade. Para fugir das batidas policiais, os exploradores da atividade ilícita migraram de pontos tradicionais no centro para bairros periféricos, onde funcionam em sobrelojas, sótãos ou salões de festas. Na noite de quinta-feira, dia em que a Polícia Militar (PM) estourou dois desses pontos na capital, a reportagem de O TEMPO, motivada por uma denúncia, visitou uma casa de bingo no bairro Alípio de Melo, região Noroeste da cidade, para checar a movimentação no local. Foram momentos tensos e sob grande vigilância dos funcionários do estabelecimento. Sem levantar nenhuma suspeita na rua onde funciona, o bingo recebe diariamente cerca de 300 pessoas que se aventuram no jogo.

Em um ambiente abafado, com forte cheiro de fumaça de cigarro, os jogadores se distribuem pelo salão. O local é bem iluminado e cheio de funcionários atentos a qualquer movimentação estranha ou a qualquer novo frequentador. Os costumeiros, em sua maioria mulheres idosas, não se desconcentram em momento algum ao marcar as cartelas. Água e café são de graça e os produtos mais consumidos. Outras bebidas, como cerveja ou refrigerante, raramente aparecem sobre as mesas de plástico espalhadas pelo salão. As rodadas de bingo são ininterruptas. Para as cartelas de R$ 1, a premiação para quem primeiro marcar todos os números de uma linha é de R$ 100 e para o bingo, que são todos os números, o valor é R$ 300. As cartelas de R$ 2 têm prêmios de R$ 300, para a linha, e R$ 500, para o bingo. Nos finais de semana, quando a premiação é mais alta – cerca de R$ 1.000 -, a movimentação é ainda maior.

Dependência

Se depender do público frequentador, as polícias, o Ministério Público (MP) e a Justiça ainda vão ter muito trabalho com os exploradores da atividade. É que as casas de bingo são fomentadas por pessoas com forte relação de dependência com o jogo. “Há dez anos pratico o bingo. Venho quase todos os dias. Se meu marido descobrir, ele me mata. Tento parar, mas fazer o quê? Sou viciada”, contou uma das jogadoras que estavam no bingo na noite de anteontem. A promotora de Justiçada Promotoria de Combate ao Crime Organizado de Minas Gerais, Cássia Serra Teixeira Gontijo, explica que “o jogador pode ser comparado ao usuário de drogas. Ele é consciente do risco e da proibição, mas alimenta a atividade”. Como alerta à população, a promotora esclarece que o bingo é uma atividade muito lucrativa para quem explora, mas extremamente prejudicial para quem joga.

“Muitas dessas casas não têm transparência no jogo. Se as pessoas quiserem questionar qualquer situação de licitude, não terão respaldo legal”. Ainda segundo Cássia, o Ministério Público recebe denúncias de casos em que um membro da família está destruindo o patrimônio com o jogo. A delegada Letícia Rogedo, que é coordenadora administrativa da Delegacia Adida ao Juizado Especial Criminal, explica que por ser um crime de menor potencial ofensivo, a prática dos jogos de azar não leva à detenção. Os envolvidos assinam um Termo Circunstancial de Ocorrência e os exploradores prestam serviços à comunidade.

Ministério Público

15 operações do MP foram feitas em BH para estourar bingos em 2008

Legislação

Decreto-lei 3.688/1941

O art. 50 proíbe estabelecer ou explorar jogo de azar em lugar público ou acessível ao público, com pagamento de entrada ou sem ele

Lei Zico (nº 8.672/1993)

Voltou a autorizar o jogo para o fomento das atividades de desporto

Lei Maguito (2000)

Revoga a autorização e volta a proibir dando prazo de um ano para quem já explorava o jogo

Visão do repórter

“Mesmo nos passando por jogadores comuns, fomos observados durante todo o tempo em que estivemos na casa de bingo no bairro Alípio de Melo. Em cerca de uma hora, foi possível perceber que a clandestinidade do jogo provoca uma sensação de paranoia nas pessoas envolvidas com a exploração da atividade. Desconfiado, um dos funcionários chegou a nos questionar se éramos policiais ou jornalistas. Uma espiã da casa sentou-se em nossa mesa. A essa altura, já estávamos tensos. Na saída, optamos por deixar o local de táxi.” Valquiria Lopes Leo Fontes. (O Tempo – Valquíria Lopes – Foto: Leo fontes)