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Entrevista Playboy: Ciro Batelli

06/08/2019

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Em homenagem ao Ciro Batelli, o BNLData esta republicando a entrevista do Ciro Batelli a Playboy, veiculada na Edição 317 da Revista de 13 de dezembro de 2001

O homem é troncudo, não muito alto. Fala grosso. Quando olha sério nos seus olhos você pode achar que está num filme de Martin Scorsese sobre Las Vegas. Robert De Niro vai aparecer a qualquer instante. Afinal, este senhor de 64 anos se chama Ciro Batelli e mora numa rua com seu nome… em Las Vegas! E a história de como um menino de Ribeirão Preto virou o vice-presidente da gigantesca organização Caesars International na capital mundial do jogo já é o suficiente para torná-lo uma celebridade. Batelli é bastante conhecido por um grande círculo de amigos e clientes que visitaram Las Vegas nos últimos 20 anos. Brasileiros aos montes foram recebidos pelos legionários fake do Caesars com atenção especial do vice-presidente. Ele virou também um freqüentador habitual do programa de Amaury Junior na rede Bandeirantes e teve sua imagem espalhada pelo Brasil. Mas celebridade mesmo, Ciro veio a conhecer quando resolveu assumir seu namoro com a primeira dama da televisão brasileira, sua majestade, Hebe Camargo. Foi aí que ele soube o que era acordar com telefonemas de repórteres e ser perseguido por oito viaturas da imprensa futriqueira pelas ruas de São Paulo.

A surpreendente fama e a contagiosa alegria da nova namorada apagaram de Ciro Batelli qualquer expressão séria. Ele exibe seu sorriso juvenil entre piadas e frases espirituosas. É um vencedor. Não só porque tem um Rolls Royce Cornish conversível estacionado na garagem de sua mansão na Batelli Court, Las Vegas. Ele é um vencedor porque seus dois filhos [Fernando com 24 anos, Flávia com 22] foram muito bem criados e estão seguindo o ramo do turismo. E Cristina, sua mulher durante 25 anos, continua sua melhor amiga. O namoro com Hebe foi curto. Os dois entenderam que o fundamental era preservar a amizade, sólida e acima de qualquer aventura. Os anos de Caesars se foram, e com ele o glamour de uma era de estrelas de Hollywood, personalidades internacionais, milhões de dólares nas mesas de jogos, e também de trabalho excessivo.

Hoje Ciro Batelli preside a empresa de consultoria e marketing Mr. Vegas International Inc. [com clientes nos Estados Unidos, França e Andorra]. Realizou um velho sonho, o de abrir seu próprio restaurante, com chef italiano – o Batelli’s, claro. Não ganha tanto, mas também trabalha bem menos e se dá ao luxo de passar suas madrugadas viajando pela internet. No deserto de Nevada, ele quer saber tudo o que acontece no Brasil. Este é seu grande sonho atual – voltar. As razões são fortes: ele teme pelo futuro de Las Vegas nessa guerra contra o terrorismo e quer implantar no Brasil tudo o que aprendeu na poderosa indústria de turismo dos Estados Unidos.

Para entrevistar Ciro Batelli, Playboy enviou o editor sênior Dagomir Marquezi. Seu relato: “Foram duas sessões, uma antes de Ciro oficializar seu namoro com Hebe Camargo, outra no dia seguinte. Ele me recebeu em sua ‘casa’ paulistana, o Maksoud Plaza Hotel. Lá, ele conhece e é conhecido por todo mundo. A gerência sabe que ele gosta de uma bandeja de frutas típicas brasileiras (especialmente serigüela) quando se instala numa suíte. Ciro fala com a entonação de um advogado, ele que já foi um procurador da Justiça. No princípio, é difícil entender o que ele fala. Mas a voz grave e profunda vai aos poucos ficando mais audível e logo explode em gargalhadas. Não podia ser diferente com alguém que conquistou Hebe Camargo.

Mesmo viciado por serigüelas e romãs, Ciro desenvolveu um hábito bem americano: toma baldes de ‘chafé’, um café solúvel descafeinado bem diluído em grandes canecas. E fuma. Sem parar. Cigarros Capri finos como cargas de caneta Bic, curtos e de baixos teores. Cigarros ‘dietéticos’, na sua definição. Ciro adquiriu outro bom costume dos americanos: não ter vergonha do que conquistou em sua vida. Ele não tem o menor problema em dar a lista de seus automóveis e fala em milhões de dólares com a naturalidade com que nós falamos em parcelar contas de 100 reais. Cada dólar ganho por ele pode ser muito bem explicado. Las Vegas virou um lugar cruel para quem sai da linha. Quem quer se dar bem em Vegas tem que provar a própria honestidade o tempo todo à implacável Comissão de Jogos. ‘Pago todos os meus impostos’, declara Batelli. ‘Mesmo porque pagar um advogado fica bem mais caro’”.

PLAYBOY – Como foi que o menino de Ribeirão Preto conquistou Las Vegas?
BATELLI – Eu vim muito cedo do interior do Estado para a capital. Me formei em Direito. No início escrevia e produzia fotonovelas que eram vendidas para revistas brasileiras e espanholas. Entre meus artistas estavam o Fulvio Stefanini e o Agnaldo Rayol. Foi uma época muito gostosa, na década de 60. Aí comprei algumas casas noturnas em São Paulo, como o Cave e o Zumzum. Naquela época a noite era muito sofisticada, muito alegre, com uma mistura muito grande de pessoas. Artistas, gente de sociedade, prostitutas de luxo, grandes modistas. Foi o ápice do Denner, o surgimento do Clodovil. Foi também a era da Jovem Guarda, e guardo grandes amizades desde aquela época.

PLAYBOY — Com que dinheiro você comprou essas casas noturnas?
BATELLI — Trabalhava e guardava. Não recorria a meus pais pelo orgulho de “me fazer homem”. Nunca fui um cara de jogar dinheiro fora. Ser homem naquela época significava ter um carro e um apartamento pagos. Mesmo que fosse uma quitinete no Bexiga, o primeiro imóvel que comprei, e que eu mantenho até hoje. É uma recordação da minha primeira conquista. Infelizmente não pude guardar o primeiro carro, um Volks 69, que eu lustrava todo dia.

PLAYBOY — E Las Vegas, como aparece na sua vida?
BATELLI — Desde a década de 60 eu viajava todos os anos durante as férias. Na primeira ida a Las Vegas fiquei apaixonado pela iluminação, pela energia da cidade, pelos shows e pelos preços. Nessa primeira vez, em 1965, eu fiquei hospedado no Sand’s, que era o must da cidade. Fiquei numa suíte à beira da piscina que custava 25 dólares a diária. O show com Frank Sinatra custava 17 dólares e meio, com direito a dois drinques. Para um caipira de Ribeirão Preto foi um choque. Só para se ter uma idéia, quando o Frank Sinatra se apresentou aqui mesmo no Clube 150 do Maksoud Plaza, o preço da entrada era de 600 dólares por pessoa.

PLAYBOY — Até então, você era um simples turista.
BATELLI — Em julho de 1966 eu voltei a Las Vegas, estava para ser inaugurado o primeiro hotel temático dos Estados Unidos, o Caesars Palace. Fui atraído ao hotel, como todo mundo. Passei a ir todos os anos para Vegas, e comecei a estudar o fenômeno dos cassinos, mais como hobby.

PLAYBOY — Mas já pensando na possibilidade de reabrir os cassinos brasileiros, certo?
BATELLI — Nos anos 70 participei de um grupo de estudos em São Paulo sobre a possível reabertura dos cassinos no Brasil. Nesse debate ouvi muita besteira. Pesquisei dados reais, oficiais, em órgãos do governo norte-americano e contestei aqueles absurdos. Caí na graça da platéia. Fui aclamado presidente do comitê nacional pela reabertura dos cassinos.

PLAYBOY — Qual foi sua primeira providência no cargo?
BATELLI — Fui falar com o Steve Karoul, que era vice-presidente de marketing da Caesars World. Pedi subsídios, apoio legal. Acabei sendo chamado para representar a cadeia Caesars no Brasil. Não sabia que no Brasil havia tantos jogadores interessados em freqüentar os cassinos americanos. Inventei loucuras de marketing que deram certo. Em
1985 fui convidado para trabalhar no Caesars de Atlantic City.

PLAYBOY — Como foi o convite?
BATELLI — Em 1985 eu estava em Las Vegas para assistir uma luta do Sugar Ray Leonard. Dessa vez, em vez de minha mulher, eu viajei com minha sogra, com quem, aliás, me dou muito bem. Toca o telefone. É a secretária do Terry Lanni, o número 1 do Caesars na época, me convidando para um jantar. Nesse jantar havia mais executivos do que eu esperava. O Lanni me convida para assumir o departamento latino-americano do Caesars em Atlantic City. Eu disse: “A resposta só te dou amanhã”. Ninguém entendeu. “Como assim, Ciro? Nós temos 11 mil funcionários, e todos eles querem a posição que estamos te oferecendo”. Eu respondi: “Me desculpe, Terry, mas antes tenho que consultar minha sogra”.

PLAYBOY — A sogra?!
BATELLI — Todo mundo caiu na gargalhada. “Com a sogra?!” Aí eu expliquei: “Eu sei que longe da mãe minha mulher não vai estar feliz. E se ela não estiver feliz, eu também não vou estar. Portanto, minha sogra é fundamental”. Riram muito e acharam que era loucura de brasileiro.

PLAYBOY — E a sogra topou?
BATELLI — Depois do jantar conversei com a Tata, minha sogra. Ela pensou muito, mas concordou em mudar de vida. Nós ligamos de Vegas para minha mulher Cristina comunicando que ela deveria tirar as crianças da escola e preparar a mudança para os Estados Unidos. “Você não tem escolha. Eu e sua mãe decidimos isso.” Claro que foi tudo no maior bom humor.

PLAYBOY — Você já embarcou com o green-card?
BATELLI — Não. Ganhei o visto L-1, de residência e trabalho. Morei três meses no hotel. Montei minha festa de apresentação e procurei alguém que nunca tivesse se apresentado em Atlantic City. Levei o [bailarino russo] Rudolf Nureyev.

PLAYBOY — E as coisas foram bem desde o início?
BATELLI — Estranharam muito a presença de um brasileiro. Mas em 3 meses recebi uma promoção, em seis meses recebi outra e no fim do ano já era presidente das operações na América Latina. Fechamos o balanço e eu tinha aumentado os negócios internacionais da Caesars de Atlantic City em 61 por cento.

PLAYBOY — Mas você só cuidava dos clientes latino-americanos?
BATELLI — Não só. Ajudei a abrir escritórios da Caesars na Turquia, na Austrália, na Espanha, em Portugal. Havia espaço vago, eu ia lá. Me dava muito bem com o escritório internacional, e trabalhava com o time europeu, os encarregados do Oriente Médio, do Extremo Oriente.

PLAYBOY — Isso tudo em Atlantic City. E quando você se mudou para Las Vegas?
BATELLI — Fui recomendado para substituir um vice-presidente da Caesars Palace, uma promoção considerável. Me despedi de Atlantic City com um show do meu amigo Roberto Carlos. No começo ele resistiu um pouco, disse que não gostava de se apresentar em cassinos, por causa da sua fé, etc. Aí eu disse: “Roberto, eu sou tão católico quanto você. Você não vai se apresentar sentado sobre uma roleta. O hotel tem um excelente teatro para 1600 espectadores, uma maravilha”. Ele ainda ficou na dúvida. Aí pedi para nossa gráfica realizar um convite espetacular em branco e azul, que são as cores favoritas do Roberto Carlos, já com seu nome e a data da apresentação. Quando viu o convite, deu seu ok. O seu especial de fim de ano de 1988 da Globo foi gravado em Atlantic City. No mês seguinte eu estava em Vegas. Como bônus pelo trabalho realizado em Atlantic City, ganhei um Rolls Royce conversível.

PLAYBOY — E aí foi Las Vegas que conheceu o Brasil?
BATELLI — Patrocinei todas as lutas do Maguilla nos Estados Unidos. Fizemos a Noite do Rio, com uma ala da Beija- Flor comandada pelo Joãosinho Trinta. Dei muitas festas e promoções. Foram anos fabulosos. Com o tempo a Caesars foi vendida para a Starwood, que é uma empresa gigantesca, mas que não é do ramo. Como a situação econômica da América Latina começou a piorar, em 1996 eu fui para a Sodiak, uma empresa de equipamentos para cassinos. Depois fui presidir a Mr. Vegas. Mas agora tenho pensado cada vez mais em voltar para o Brasil e trabalhar na área de turismo e entretenimento.

PLAYBOY — A atual onda de terrorismo tem alguma coisa a ver com esse desejo de voltar?
BATELLI — Encostada em Las Vegas está a famosa Área 51, uma instalação supersecreta que não pode nem ser sobrevoada. Tem a base aérea Nellis, uma das bases mais importantes da costa oeste dos Estados Unidos, onde estão os bombardeiros Stealth. Temos a represa Hoover, com o lago Mead, que fornece água e energia para o Estado de Nevada, Arizona e todo o sul da Califórnia. Além disso, Las Vegas é um símbolo do capitalismo. Portanto, um alvo em potencial.

PLAYBOY — Já houve alguma ameaça direta a Las Vegas?
BATELLI — Não. Mas a mentalidade hoje na América não é esperar a ameaça, mas se precaver antes que a ameaça surja. Com muita prudência, muita cautela. Apelo a Deus que nossos governantes tenham bom senso e equilíbrio para não se perderem numa impulsividade que leve o mundo a uma tragédia maior. Que não seja uma terceira guerra mundial, mas uma campanha antiterrorista com aliados tanto no mundo ocidental quanto oriental. Deus nos deu o dom da palavra, do raciocínio e da tolerância.

PLAYBOY — Você é católico, certo?
BATELLI — Eu sou um cidadão de todas as religiões. Não acredito nos mercadores da fé. Para falar com Deus não preciso de intermediário. Deus entende qualquer idioma e está disponível a qualquer hora do dia ou da noite. Não preciso de operador DDI nem de tradutores.

PLAYBOY — Que história é essa de você morar numa rua com seu nome?
BATELLI — Sou membro da Câmara Latina de Comércio de Las Vegas. Como ajudei muito o turismo da cidade, fui homenageado com o batismo da Batelli’s Court. Me senti na obrigação de me mudar para lá. É uma área bem residencial, no sudeste da cidade. Perto do meu restaurante, o Batelli’s.

PLAYBOY — E Las Vegas vai bem ou já deu algum sinal de que vai entrar em decadência?
BATELLI — Sempre falam em decadência, mas ela nunca acontece. Vegas é o grande destino de turismo nos EUA na costa oeste, junto com a Disney World, na costa leste. Somos a primeira cidade em congressos e convenções, equiparada somente a Chicago. Temos o índice de construção civil mais alto dos Estados Unidos. Até o final de 2001 teremos dois novos hotéis, num total de 130 mil quartos. O sucesso disso tudo se deve à baixa tributação, que atrai investidores. Os cassinos de Nevada pagam 6,35% do faturamento bruto. Só para efeito de comparação, na França essa taxação é de 60%. Mas, cá entre nós, você nunca ouviu falar de um cassino na França, ouviu?

PLAYBOY — Você conheceu muitos malucos nesses tempos de Vegas?
BATELLI — Vi muita gente supersticiosa. Um brasileiro, geriatra de São Paulo, só jogava roleta de paletó branco. Outro jogava com os sapatos trocados, o sapato direito no pé esquerdo, e vice-versa. Outro brasileiro não fumava, mas só jogava bacará com um cigarro apagado na boca. Toda hora vinha um empregado oferecer o isqueiro, e ele brigava: “Não é pra acender!”. Algumas clientes mulheres trocavam de roupa durante a noite para mudar a sorte. Uma delas trocou oito vezes de roupa numa noite só. Deve ter funcionado, pois ela começou perdendo 80 mil dólares e saiu da mesa ganhando 15 mil.

PLAYBOY — E o nível das apostas?
BATELLI — O recorde foi de um mexicano de Puebla. Em 51 horas de bacará ele ganhou 13,5 milhões de dólares. Voltou a Puebla, retornou cinco dias depois a Vegas e ganhou mais 10 milhões e meio de dólares. Ou seja, em 15 dias ganhou 24 milhões de dólares.

PLAYBOY — Uau! Qual é o segredo desse cara?
BATELLI — Sorte. Jogo de cassino é sorte. Esse mexicano jogava bacará a 200 mil dólares por mão. Acertou vários ties, empates que pagam 9 por 1. Temos também um magnata da mídia da Austrália chamado Gary Packer, muito conhecido em Las Vegas, e que ganhou 10 milhões de dólares no [hotel-cassino] MGM-Grand. Ele detém o recorde de gorjeta — 620 mil dólares à equipe da roleta naquele turno. Só joga 21 e bacará.

PLAYBOY — E a maior perda?
BATELLI — O próprio Gary Packer perdeu 9 milhões e meio de dólares numa viagem. A gente conta por viagem, cerca de 3 a 5 dias de jogo. Mexicanos perderam 3,5 milhões, italianos perderam 5 milhões.

PLAYBOY — O que passa na cabeça dessa gente?
BATELLI — Pegue o caso do Stanley Ho, dono de cassinos em Macau e Hong Kong. Milionário, jogava muito forte. Um dia eu perguntei a ele: “Mr. Ho, por que o senhor joga? O senhor tem o dinheiro que quiser”. Ele me respondeu: “Ciro, onde eu passo as pessoas estendem o tapete vermelho. Um pensamento meu em Macau é uma ordem. Então eu jogo pelo desafio: essas cartas malditas não me reconhecem!”.

PLAYBOY — Rola muita baixaria nos cassinos?
BATELLI — Os cassinos tem sua própria segurança. Então seu comportamento pode ser até excessivo desde que não incomode o cliente ao lado. Aí você é convidado a se retirar, seja lá qual for o volume das apostas. Na nossa filosofia, o cliente de um milhão não vale mais do que um cliente de 50 dólares. O de um milhão tem mais benefícios, mas não mais direitos. Mas se você tem um volume de apostas grande, vai ter direito a grandes cortesias.

PLAYBOY — Que tipo de cortesia?
BATELLI — Eu já fretei um Concorde para levar clientes a Paris. Em Paris havia outro avião esperando com dois assistentes meus para um cruzeiro pela Riviera. Limusines esperavam os clientes para três dias de estadia em Barcelona e cinco dias em Paris com Rolls Royces à disposição. Tudo pago pelo cassino. Teve um Natal em que comprei 18 Cadillacs para distribuir às esposas dos apostadores. Minhas clientes não chegavam ao Caesars sem ganhar uma bolsa Chanel.

PLAYBOY — Isso, antes de começar a jogar?
BATELLI — Esses presentes são dados na chegada, independente de eles ganharem ou perderem. Dar um presente depois que ele perdeu é até ofensivo. O cliente vai dizer: “Ele está me dando um presente com o dinheiro que eu perdi”. O gesto de apreço ao cliente tem que ser na entrada, quando você não sabe o resultado.

PLAYBOY — Qual o perfil do brasileiro que freqüentava o Caesars?
BATELLI — De classe média alta para cima, apostando entre 10 mil e 5 milhões de dólares. Durante a Copa do Mundo de 1994 eu apostei todo meu cacife no Brasil. Tive que comprar adiantado os pacotes de entradas para os jogos, fretei dois aviões para levar nossos clientes aos estádios, limusines para levá-los aos aeroportos, garçonetes para servi-los nos estádios. Todos os funcionários do Caesars usavam as cores da bandeira brasileira. Nossos legionários recebiam os torcedores que chegavam dos estádios após cada vitória da seleção. Charutos Davidoff eram distruibuídos com a bandeira brasileira no anel. Sempre que eu pude promover o verde-amarelo, eu promovi.

PLAYBOY — Antes de você, brasileiros não iam a Las Vegas?
BATELLI — Eu posso dizer que revelei Las Vegas não só para o Brasil, como para a América Latina.

PLAYBOY — Qual é o segredo para atrair os jogadores?
BATELLI — Você tem que descobrir o que a mulher do jogador quer. O homem joga se a mulher deixar. Você tem que agradar quem deixa jogar, com atrações específicas para mulheres. Para mulheres brasileiras eu já promovi desfiles exclusivos da Scada, da Neil Maurcus. Mulher que não freqüenta shopping não é mulher. É onde ela tem orgasmo.

PLAYBOY — Você chegou a ter alguma decepção?
BATELLI — Nada que me machucasse, nenhuma mágoa. Talvez um mau pagador. Mas isso não chega a afetar minha relação pessoal. Eu acho que ninguém tem que vender a casa para pagar a dívida de jogo. Mesmo que essa dívida seja comigo.

PLAYBOY — Você emprestava dinheiro próprio aos jogadores?
BATELLI — Não, mas autorizava créditos até um milhão de dólares. Mais de um milhão, precisava da minha autorização e a do presidente. No mundo dos cassinos você lida com valores tão altos que precisa ter o pé no chão e aprender a dizer não.

PLAYBOY — Você gosta de jogar?
BATELLI — Adoro uma tranca. É meu jogo favorito.

PLAYBOY — Com ou sem aposta?
BATELLI — Tem que valer alguma coisa. Jogo “leite de pato”, só na Liga das Senhoras Católicas.

PLAYBOY — Tem sorte?
BATELLI — De vez em quando. Na semana passada fui cortar o cabelo e tinha um cliente na minha frente. Para esperar minha vez passei num pub ao lado para tomar o café. Apostei cem dólares numa máquina de videopôquer. Na terceira jogada a máquina me deu um royal street flash prontinho, no valor de vinte mil dólares. Financiou esta minha viagem ao Brasil.

PLAYBOY — Trabalhando em Las Vegas você não ficou tentado a jogar cada vez mais?
BATELLI — É aquela história: você gosta demais de sorvete. Vai trabalhar numa sorveteria. Na primeira semana, come sorvete adoidado. Na segunda, não vai querer ver sorvete na sua frente. É como droga: ou você cheira ou você vende. Vender e cheirar, não dá.

PLAYBOY — Existe jogo fora de Las Vegas?
BATELLI — Las Vegas é o Vaticano do jogo. O resto é paróquia.

PLAYBOY — Inclusive os cassinos da Europa?
BATELLI — O quê?! Aquilo é a decadência.

PLAYBOY — Fora dos Estados Unidos onde tem bons cassinos?
BATELLI — Na África do Sul. Na América Latina tem Punta del Leste e o resto é piada, inclusive no Caribe.

PLAYBOY — E a prostituição em Las Vegas?
BATELLI — É crime. É ilegal, mas tem. No Caesars existia uma filosofia: qualquer funcionário de qualquer nível que facilitasse o trabalho de prostitutas seria despedido sumariamente. Nosso negócio é jogo e hotelaria, não prostituição. Muitos hotéis adotam essa política. Alguns hotéis possuem um bar, e as prostitutas o freqüentam. Se o cliente encontra uma no bar e sai com ela, o hotel não tem culpa. Mas a prostituta americana é horrível. A melhor é a brasileira. O Brasil é um país ímpar: aqui a prostituta goza, o traficante cheira e o cafetão se apaixona.

PLAYBOY — Quantos carros você tem?
BATELLI — Meu xodozinho é um MR-2 Turbo da Toyota, ano 1991. É meu carro do dia-a-dia. Era chamado na época de “a Ferrari japonesa” – 200 cavalos de força, um som maravilhoso, um carro gostoso de dirigir. Tenho também uma Mercedes 600 V-12. Um Rolls Royce Corniche conversível branco. Uma Ferrari Testarrossa. Tenho um Honda Insight, híbrido, que usa gasolina e eletricidade. Cada vez que você breca, carrega a bateria. Faz 80 milhas com um galão de gasolina. E tenho uma perua Honda CRV. Nenhum carro americano, que dá muita mão-de-obra. Gosto muito do conforto do Cadillac, mas minha filha acha cafonérrimo. Ela me disse: “Papai, Cadillac é carro de velho!”

PLAYBOY — Seu patrimônio dá para constar na lista dos mais ricos da revista Forbes?
BATELLI — O que é isso?! Posso sair na lista da revista Pato Donald, no máximo. E sem ser o Tio Patinhas. Tenho uma vida confortável. Gosto de viver como rico, mas com o pé no chão. Não sou perdulário, sou muito cuidadoso. Quem cuida dos meus investimentos é a Merryl-Lynch. Perdi muito dinheiro no mercado de capitais nessa queda da Bolsa de Nova York. Mas não é conta monumental, milionária. Todos os meus dólares têm origem justificada.

PLAYBOY — O que você ensina aos seus filhos?
BATELLI — Não mintam. Para mim mentira é pecado mortal. O que eu passo a eles: seja qual for sua profissão – engraxate, chofer, executivo, advogado – procure estar entre os melhores. Se esforce, se dedique, não fique esperando oportunidades de bandeja. Sonhe e lute para conseguir realizar seu sonho. Se esforce, seja leal com seus companheiros de trabalho e com a empresa que te paga.

PLAYBOY — Afinal: por que não há cassinos no Brasil?
BATELLI — Em primeiro lugar, pela falsa moral, faz tempo. A hipocrisia, mais tempo ainda. E falta uma regulamentação séria. Cassino é um negócio muito sério. Você não pode se ilustrar sobre cassinos vendo filmes de Hollywood. Aquilo é ficção. Ou então quem tem a idéia dos cassinos americanos de antes da década de 1960.

PLAYBOY — O que aconteceu nos anos 60?
BATELLI — Essa é a marca divisória. Foi quando começaram a organizar as comissões de jogos nos Estados Unidos. Elas agem com um rigor digno da Gestapo. Qualquer funcionário de um cassino, do porteiro ao presidente tem que ser licenciado pela Comissão de Jogos, com uma investigação de sua vida pregressa de 20 anos. A cada três anos essa licença é renovada e a investigação recomeça. Mentira é um pecado capital em Las Vegas. Contou uma mentira, tem a licença suspensa.

PLAYBOY — Quem começou essa limpeza?
BATELLI — Foi um processo saneador imposto pelas grandes corporações. Afinal, quem é acionista dos cassinos de Las Vegas, hoje? O fundo de pensão dos professores da Califórnia, o Banco do Japão, grandes multinacionais. O crime organizado foi afastado. A comissão de jogos é um órgão estadual, com total autonomia. Se você é reprovado na Comissão, não adianta partir para a Suprema Corte. Frank Sinatra tinha 25% do hotel Sands. Sua licença foi cassada só porque ele saiu numa foto com o gângster Carlo Gambino em Nova York. Foi essa seriedade que abriu Las Vegas para os grandes investidores. Se eu quiser contratar você para trabalhar no meu hotel-cassino, primeiro vou ter que consultar o FBI. Se eles negarem, nem faço o convite, não importa seu talento.

PLAYBOY — E esse rigor é possível no Brasil?
BATELLI — Ninguém quer ser mais realista que o rei. Uma regulamentação tem que ser adaptada à conjuntura brasileira. Eu fui convocado pela Câmara dos Deputados do Brasil, tivemos a aprovação do nosso projeto de regulamentação de cassinos na Câmara. A Comissão de Justiça fez uma sabatina comigo. O projeto foi para o Senado, aprovado por 9 a 4. Agora a regulamentação está nas mãos do vice-presidente do Senado, senador Edison Lobão. Ele me disse que o projeto está quase pronto para ser aprovado, mas que o momento não é propício, pois temos outras prioridades. E eu sou obrigado a concordar com ele. Está havendo um processo saneador no Congresso brasileiro como aconteceu em Las Vegas.

PLAYBOY — Como seriam os cassinos brasileiros?
BATELLI — Seriam hotéis-cassino instalados em estâncias turísticas registradas na Embratur. São mais de mil estâncias turísticas, incluindo todo o litoral, estâncias climáticas e minerais. Não seriam apenas salas de jogo, pois já temos os bingos, uma atividade muito honesta e séria, apesar de alguns maus elementos. É só disciplinar, com parâmetros legais.

PLAYBOY — Quem faz lobby contra cassinos no Brasil?
BATELLI — Ninguém. A Igreja só se coloca contra quando perguntada. Apesar do Banco do Vaticano ter uma participação de 8% nos Cassinos Áustria. Eu recebi as provas disso do governo austríaco. E esse negócio da Igreja se meter em atividade industrial ou lúdica… a Igreja tem que cuidar das almas. Não deve misturar estação.

PLAYBOY — E quem apóia a regulamentação dos cassinos no Brasil?
BATELLI — Toda a indústria turística apóia. O Sindicato de Garçons, o sindicato de Hotéis e Similares, a Confederação Nacional de Turismo, a Confederação Nacional de Empregados do Comércio, todo mundo apóia. Quem não apóia é por algum problema pessoal ou por desconhecer a realidade dos cassinos. É aquela história: eu não gosto de cassino mas nunca fui em um. Eu não gosto de Coca-Cola, mas nunca experimentei.

PLAYBOY — E o governo brasileiro?
BATELLI — Um dos grandes inimigos dos cassinos é o José Serra. Me parece que ele é muito ligado à Assembléia de Deus. Como ministro da Saúde é um dos melhores que o Brasil já teve até hoje. Minhas homenagens. Mas parece ter nascido num pé de limoeiro. Está sempre de cara azeda.

PLAYBOY — Mas esta é uma posição pessoal dele ou oficial do governo?
BATELLI — Não é oficial, pois quando eu fui convidado a prestar depoimento no Senado fui acompanhado pelo ministro da Justiça na época, senhor Iris Rezende, que me dedicou muito tempo. A declaração dele está gravada no Senado: “Como homem evangélico eu não sou favorável, mas como ministro da Justiça tenho que reconhecer que este projeto, como está sendo apresentado, é um benefício para o nosso país”. Como ministro, ele jamais daria uma opinião favorável se não tivesse consultado o presidente.

PLAYBOY — Com quantos presidentes você já falou sobre esse projeto?
BATELLI — Desde o tempo do João Figueiredo [presidente de 1979 a 1985]! O filho dele, Paulinho Figueiredo, me convidou para um coquetel e me perguntou na frente do presidente: “Quando nós vamos ter as roletas girando no Brasil?” Eu respondi: “Paulinho, isso depende de sua excelência, o senhor seu pai”. Aí o presidente Figueiredo botou a mão no meu ombro e disse: “Batelli, você é um porra-louca. Eu sou um militar. Nunca freqüentei cassino. Não tenho nada contra cassinos. Mas é que eu tenho 419 filhos-da-puta em Brasília, e eles vão querer um cassino cada um. Então eu sou contra, por comodidade”. Naquela época existiam 419 deputados, e, não, 513, como hoje.

PLAYBOY — Qual seria o impacto econômico da abertura dos cassinos no Brasil?
BATELLI — Em primeiro lugar, os jogadores deixariam de ir para Las Vegas ou Punta del Leste. Eu quero dizer os jogadores de médio pra baixo. Os grandes jogadores não ficariam expostos a jornalistas e fofocas, continuariam viajando para fora. Economicamente, o importante para o Brasil não é o jogo em si, mas as atrações, os espetáculos, os restaurantes, os eventos esportivos. Seria uma injeção na economia do turismo interno, sazonal, principalmente. Um show segura o turista mais um dia ou dois. Seriam mais palcos para artistas brasileiros. Mais incentivo para estudantes de dança, de arte dramática. Hoje esse mercado de trabalho artístico está muito reduzido. Hoje não se faz nem monólogo sem patrocínio. Você vai ao cassino e não precisa jogar nada, nem 25 centavos. Vai para jantar, para curtir um show. O Silvio Santos, por exemplo: ele vai a Las Vegas para ler e assistir a shows. Nunca gastou 25 centavos em um caça-níqueis. E eu conheço o Silvio Santos há anos.

PLAYBOY — Você ainda tem planos de sociedade com o Silvio Santos?
BATELLI — Temos um acordo para explorar o Jequitimar de Guarujá em caso de liberação dos hotéis-cassinos. Aí, vamos trabalhar juntos.

PLAYBOY — Liberando os cassinos, você voltaria ao Brasil?
BATELLI — Voltaria por muito menos! Hoje não preciso de grandes desculpas para querer voltar ao Brasil. Eu nunca perdi o contato com o Brasil.

PLAYBOY — Nesses anos de Las Vegas você conheceu um monte de personalidades. Parece que o Anthony Quinn virou amigo íntimo, certo?
BATELLI — Uma pessoa maravilhosa. Estive em sua casa de Nova York, conheci sua mulher, seus filhos, sua secretária, que depois virou sua esposa… Às vezes ele brigava com a Yolanda, sua primeira mulher, me ligava e pedia para se esconder na minha casa em Las Vegas. Me deu uma de suas telas com dedicatória. O Anthony Quinn e a Warner haviam comprado os direitos do livro Capitães da Areia, de Jorge Amado, para o cinema. Eu gostaria que o filme fosse dirigido pelo Carlos Manga, rodado na Bahia e eu entraria como co-produtor. Tony tinha muito carinho pelo Brasil.

PLAYBOY — Você chegou a realizar algum trabalho com o Anthony Quinn?
BATELLI — Gravei quatro horas de depoimentos dele. Num certo momento da entrevista perguntei: “Tony, você fez mais de 300 filmes, trabalhou com tantas atrizes famosas. Qual foi a melhor na sua opinião?” Ele respondeu que foi a Anna Magnani, uma artista difícil, geniosa, mas uma atriz de primeiríssima. Aí perguntei: “Entre tantas atrizes que você beijou na tela, qual delas te impressionou?” Ele respondeu: “Ingrid Bergman. Arrepiou minha espinha dorsal. Ciro, se eu não fosse amigo do Roberto Rossellini, ele seria um cornutto!”

PLAYBOY — Que outros VIPs cruzaram seu caminho?
BATELLI — Fiquei muito amigo do cantor mexicano Luis Miguel. Eu o levei ao Caesars para o show latino de maior sucesso da história de Las Vegas, só comparado ao de Julio Iglesias. O sucesso foi tão grande que o preço de entrada do show, normalmente de 70 dólares, foi para 250. Foram três anos seguidos de show no Caesars a partir de 1992. Há pouco tempo estive na casa dele em Acapulco. Ele começou a namorar a cantora Mariah Carey, e eu não concordei com isso. Aquela mulher é doida.

PLAYBOY — Mais astros de Hollywood?
BATELLI — Uma das pessoas mais simpáticas com quem eu tive o prazer de conviver foi o Bruce Willis. Muito simpático, simples, um cara legal. Sentamos lado a lado durante uma das lutas de boxe no Caesars. Na inauguração do Planet Hollywood, em Vegas, conheci também o Sylvester Stallone, o Schwarzenegger e a Demi Moore, que aliás estava horrível. Schwarzenegger é um gentleman. O Steven Segal, que deve ter achado que eu era mafioso, pois só falava comigo em italiano. Muito gentil, mas achou que estava falando com Don Corleone. Outro que encontrei muitas vezes no Caesars, e depois em Paris, foi o Michael Douglas. Muito simpático, atrativo, bola pra frente.

PLAYBOY — E a lista negra?
BATELLI — Um cara detestável é o Eddie Murphy. Um afro-americano arrogante, antipático, metido pra cacete. Foi durante uma luta no Caesars onde várias brasileiras e latino-americanas estavam presentes e tiraram fotos com o Billy Crystal e outros astros. Na hora do Eddie Murphy ele disse que não tirava fotos com fãs. Aí chegou uma negra, pediu para tirar uma foto e ele tirou. Outro cara asquerozinho é Macaulin Culkin. Ele estava no Caesars, uns adolescentes pediram para tirar uma foto. Na hora da foto ele escondeu a cara e saiu rindo com um amiguinho. Ridículo.

PLAYBOY — Você deve ser muito bom para quebrar o gelo dessas estrelas.
BATELLI — Aconteceu um caso engraçado com a cantora Shirley Bassey, que ficou mundialmente famosa cantando temas dos filmes de James Bond. Eu tinha acertado com ela uma entrevista para a TV brasileira, no programa do Amaury Junior. Depois do show eu e o Amaury fomos ao camarim. O secretário dela nos recebeu na porta e disse: “Senhor Batelli, a Shirley não quer dar entrevista”. Eu disse: “Então eu vou entrar no camarim”. O secretário se apavorou: “ela está de peignoir!” Eu não quis nem saber. Peguei uma garrafa de champanhe e entrei.

PLAYBOY — E aí?
BATELLI — Ela tomou o maior susto. “Vim tomar uma champanhe com você, miss Bassey”. Pedi a ela por tudo que desse a entrevista para a TV brasileira, e ela não queria saber. Ela andava muito estranha por ter perdido uma filha. Aí, apelei: “O brasileiro já conhece o talento da cantora Shirley Bassey. Acontece que o Brasil é um país negro. E você é um tesão para o homem brasileiro! O brasileiro se masturba olhando pra você! Vê foto sua e leva para o banheiro!” Para manter a história curta, eu dancei a lambada com ela, lá no camarim! Dei umas encoxadas na nega, ela deu umas encoxadas em mim. “É assim que o brasileiro te quer, suada, gostosa!” Depois da lambada a Shirley deu uma entrevista que o Amaury teve que encurtar, pois ela não queria mais parar de falar.

PLAYBOY — Você tem algum hobby?
BATELLI — Internet. Fico da meia-noite às 4 da manhã lendo jornais e conversando com amigos em vários países.

PLAYBOY — Torce por algum time?
BATELLI — Tenho simpatia pelo São Paulo, mas sou torcedor mesmo da Seleção brasileira.

PLAYBOY — Como começou esse namoro com a Hebe?
BATELLI — Eu conheço a Hebe há muitos anos. Era muito amigo do seu ex-marido, o Lélio, e também do Lelinho, o filho dos dois, pessoas maravilhosas. Quando soube da morte do Lélio, nem telefonei. Não gosto de ligar para dar adeus nem pêsames. Não sei o que falar nessas horas. Não me sinto bem. Meses depois a Hebe me ligou uma vez para pedir uma informação. E perguntou da minha separação da Cristina. Expliquei que foi uma separação muito civilizada, e que a Cristina continuava minha melhor amiga. Aí eu perguntei à Hebe: “Como você está?” Ela respondeu que estava sozinha. Eu me declarei candidato a um namorico, a um relacionamento. “Vou começar uma paquera, estou te avisando.” Ficamos nos telefonando duas ou três vezes por semana. Ligava para a florista Kátia Gianini e encomendava flores para a Hebe, com um bilhetinho, uma palavra de afeto e carinho. Isso culminou com nosso jantar de terça-feira [9 de outubro].

PLAYBOY — Como foi o jantar?
BATELLI — O assédio da imprensa foi uma loucura. Nunca imaginei que essa história ia causar uma atenção jornalística desse porte. Mas foi muito privado, com a presença do “kit Hebe”, que inclui a Nair Belo, a Rosinha Goldfarb, a Helena Mottin, o Carmo Tuffy e a mulher, a Claudia Moraes, dona do chocolates Kopenhagen. O “kit Hebe” está virando um contêiner! Uma turma muito alegre, muito bacana. É o que a Hebe transmite: um vulcão de bom humor, de alegria, de bem com ela mesma e com a vida. Como ela está desempedida e eu estou desempedido…

PLAYBOY — O relacionamento foi oficializado nesse jantar?
BATELLI — Não oficializamos nada. Essas coisas não se oficializam, acontecem. Agora estamos nos conhecendo mais na intimidade. Vamos curtir o presente.

PLAYBOY — Como ela reagiu ao encontro?
BATELLI — Parecia uma colegial, estava nervosa.

PLAYBOY — Como uma velha amizade virou uma paquera?
BATELLI — Nós sempre fomos amigos. Na última viagem que fizemos a Punta Del Leste eu encontrei a Hebe na piscina do hotel, vestindo uma canga. E a bandida tem umas pernas bonitas, rapaz! Ela se cuida mesmo. A providência ali é divina. É o toque. A epiderme. Você precisa namorar com pessoa gostosa, agradável. E principalmente sem problema. A pior coisa que um namorado ou namorada pode escutar é que o outro lado está com problema. Isso brocha qualquer um. Quando o relacionamento fica mais maduro, aí vamos ajudar a resolver os problemas. Mas em namoro é preciso bom humor, alegria constante. E a Hebe é assim o tempo todo.

PLAYBOY — Você já havia sentado no sofá da Hebe, no seu programa da TV?
BATELLI — Várias vezes, esclarecendo sobre a luta pela legalização dos cassinos. Mas acho que agora não volto mais.

PLAYBOY — Você pensa em levar a Hebe para Las Vegas?
BATELLI — Não. Eventualmente penso em voltar ao Brasil, por outras razões. Não para cidades grandes como São Paulo ou Rio, que estão violentas demais. Quem sabe abrir uma pousada no nordeste? A Pousada “Gracinha”?

(Estamos republicando no BNLData a entrevista do Ciro Batelli concedida ao editor da a Playboy, Dagomir Marquezi, e veiculada na Edição 317 da Revista de 13 de dez de 2001.)