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Duda Mendonça é preso em briga de galo.

22/10/2004

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O publicitário Duda Mendonça, marqueteiro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da candidata Marta Suplicy (PT), entre outros, foi preso em flagrante ontem à noite no Rio de Janeiro pela Polícia Federal quando participava de um evento em que eram disputadas brigas de galo.
Chefe da operação policial, o delegado Antônio Carlos Rayol disse que o publicitário admitiu ser sócio da rinha (local onde se realizam as brigas de galo), instalada em um sítio no Recreio dos Bandeirantes, na zona oeste.
À Folha, Duda não afirmou ser sócio. "Eu não vou falar mais nada. Bota o que você quiser", disse quando questionado se tem sociedade ou participou da organização do evento. Antes de interromper a entrevista, o publicitário reconheceu que estava acompanhando as brigas de galo. "Não tenho medo de nada. Não estou fazendo nada de errado. O Brasil inteiro sabe que meu hobby é esse."
A equipe da PF (32 policiais) chegou ao sítio no início da noite. Havia, segundo Rayol, cerca de 200 pessoas no local, entre elas o publicitário e o vereador Jorge Babu (PT-RJ). Cada freqüentador pagou R$ 50 para entrar.
"Os dois disseram ser sócios no negócio", afirmou o delegado, titular da Delegacia de Meio Ambiente da superintendência, acrescentando que ficou surpreso com a presença de Duda no local.
O sítio Privê, onde as disputas ocorriam, fica em um local ermo do Recreio dos Bandeirantes. O acesso é por estradas de terra. Há no local uma arena grande, duas menores, viveiros com cerca de cem aves e até uma enfermaria para tratar os animais feridos.
Dentro do sítio, funcionava uma espécie de clube social, com churrasqueira e áreas de lazer.
A PF batizou a ação de Operação Rudis, em referência a uma espada que os gladiadores da Roma Antiga eram presenteados quando sobreviviam nas lutas realizadas em arenas.
O delegado disse que chegou ao sítio após denúncias apresentadas, há cerca de duas semanas, à PF por entidades de defesa dos animais. Até o fim da noite o delegado promovia uma triagem entre as pessoas flagradas no sítio.
Segundo Rayol, os cerca de 20 sócios do local poderão ser enquadrados por formação de quadrilha, crime inafiançável, com pena, segundo ele, de até seis anos de prisão em caso de condenação.
A quadrilha teria se formado com o objetivo de promover atos de crueldade contra os animais, crime previsto na Lei de Crimes Ambientais. "Isso é uma coisa que ainda estamos avaliando [indiciamento por formação de quadrilha]", disse o delegado. Também deverão ser indiciados no artigo 32 da lei federal, que pune maus-tratos contra os animais com detenção de três meses a um ano.
Segundo a PF, cada briga movimentava cerca de R$ 50 mil em apostas. Ontem, havia dois carros novos que seriam dados aos donos de galos campeões.
A Secretaria de Imprensa da Presidência da República e a assessoria de Marta Suplicy não quiseram comentar o caso.
Publicitário é o marqueteiro do PT desde 2001 O publicitário Duda Mendonça é considerado um dos grandes responsáveis pela vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. Após aderir ao PT em 2001, o marqueteiro transformou Lula no "Lulinha Paz e Amor" na corrida presidencial, mudando até mesmo o visual daquele que havia sido chamado de "sapo barbudo" por Leonel Brizola.
Antes, Duda já colecionava vitórias eleitorais. Elegeu Paulo Maluf (PP), em 1992, e Celso Pitta, em 1996, prefeitos de São Paulo.
À frente da atual campanha de Marta Suplicy (PT) na capital paulista, o publicitário também venceu licitações para a propaganda oficial do governo federal.
No final de setembro, o contrato do governo com as três agências de publicidade responsáveis pela propaganda oficial foi renovado por mais um ano. Ou seja, a Duda Mendonça, a Lew Lara e a Matisse continuarão donas do contrato de R$ 150 milhões com o governo federal. As agências de publicidade dividem a conta, sendo que nenhuma pode ficar com menos de 15% do valor total.
Lei prevê pena de até um ano de detenção A pena por organizar ou participar de rinha de galo pode chegar a um ano de prisão. O marqueteiro Duda Mendonça poderá receber essa punição, além de multa, se for o organizador, ou mesmo um jogador, da disputa flagrada ontem no Rio de Janeiro.
Organizar ou participar de rinha é crime ambiental, definido no artigo 32 da lei federal 9.605/98. Segundo o dispositivo, é considerado crime contra o meio ambiente "praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos". O galo é considerado um animal doméstico.
A pena prevista nesse artigo é de três meses a um ano, além de multa, mas pode ser aumentada de um sexto a um terço se ocorrer a morte do animal. Em geral, incorre no crime tanto o organizador quanto os participantes da rinha.
Jogo de azar
Além de crime ambiental, há quem considere a briga de galo como um jogo de azar, por causa das apostas. De acordo com o artigo 50 da Lei das Contravenções Penais, aquele que "estabelecer ou explorar jogo de azar" poderá sofrer pena de detenção de três meses a um ano e multa.
O mesmo artigo estabelece que o apostador receberá apenas pena de multa.
Se ele for sócio do estabelecimento, é possível, assim, que a pena máxima seja de dois anos. Isso porque pode-se considerar que ele praticou dois crimes com duas ações diferentes (concurso material). Neste caso, as penas de detenção dos dois crimes poderiam se somar. Caso Duda Mendonça seja apenas um jogador, a pena máxima é a detenção de um ano, por causa do crime ambiental.
Hobby é revelado em autobiografia O gosto por brigas de galo não era mantido em segredo pelo marqueteiro Duda Mendonça. No livro autobiográfico de Duda, "Casos & Coisas", lançado no fim de 2001, pela Editora Globo, consta que a paixão por rinhas começou com o irmão mais velho.
Na página 149 do livro, o marqueteiro escreveu: "Meu irmão mais velho também criava galo, há muito tempo, e foi assim que, como milhões de brasileiros, me apaixonei pelas brigas de galos".
Ainda na publicação, na página 158, aparece uma fotografia de Duda tirada durante uma rinha. Na imagem, o marqueteiro está gesticulando com os dois braços ao redor de um ringue. "Minhas maiores manias: pescaria e briga de galo", está escrito na legenda.
Dois anos antes, em 1999, em entrevista concedida à revista "IstoÉ", Duda já tinha afirmado ter sido uma influência do irmão o gosto por brigas de galo.
Em julho do mesmo ano, o marqueteiro foi flagrado pela emissora Record numa rinha que acontecia em Salvador.
Clube do Galo
Na capital baiana, Duda costuma participar de brigas de galos em dois locais da cidade, no bairro da Armação, que fica na orla de Salvador, onde está o Clube do Galo, e no Cabula, bairro localizado na periferia.
Um amigo de Duda, que pediu para não ser identificado, disse que o marqueteiro foi influenciado também por outro familiar no gosto por brigas de galos. Ele teria herdado o hábito do pai, o publicitário Mendonça Filho.
Além disso, anualmente, no dia 2 de julho, quando os baianos comemoram a expulsão das tropas portuguesas que resistiram à Independência, Duda aproveita a viagem a Salvador para participar de um torneio que acontece no Clube do Galo.
Em setembro do ano passado, o marqueteiro participou de um campeonato de briga de galo ocorrido durante um final de semana em Feira de Santana (a 116 km de Salvador).
Rinha
A rinha -ou simplesmente briga de galo, segundo o dicionário Aurélio- envolve duas aves que podem estar equipadas com lâminas de metal nas patas.
Colocados frente a frente num espaço cercado, em uma espécie de ringue, os animais são instigados por seus donos e pelos torcedores que acompanham a rinha.
As regras da briga de galo podem variar de acordo com a região do país, mas geralmente ganha aquele que deixar a ave adversária morta ou perto disso. O galo que fugir do embate ou se machucar é considerado o perdedor da disputa.
Há casos em que os animais passam por maus tratos para ficarem mais irritados.FOLHA  SP – JOÃO PEQUENO – SERGIO TORRES