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Debate: As questões dos jogos de azar

28/05/2002

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A construção da Europa unida levou os governos a aumentar suas entradas para poder cumprir com os parâmetros de Maastricht. Um modo eficaz para encher os cofres públicos foi a promoção das loterias de Estado e outras modalidade de jogo de azar. O governo italiano oferece o primeiro prêmio graças às loterias: quase 2 bilhões de US$ por ano. No total nos Estados europeus, as loterias em 1996 geraram 57 bilhões de US$ em vendas, um aumento de 54% se comparado a 1992. Desta montanha de dinheiro, o Estado tira cerca a terceira parte. Os governos aumentaram o tipo de jogos abertos ao público, os lugares de venda e lançaram grande campanhas de publicidade. Na Grã-Bretanha, o governo introduziu três anos atrás uma nova loteria nacional que teve grande sucesso. Nos primeiros meses, o número de pessoas que compravam os bilhetes era superior ao número de votantes das eleições nacionais anteriores. No primeiro ano de funcionamento, as pessoas apostaram cerca de 6 bilhões de libras nesta loteria. Nos Estados Unidos, a situação mudou radicalmente nos últimos anos. De 1894 a 1964 as loterias eram ilegais em todos os estados. Em 1988, só funcionavam cassinos nos Estados. Em seu início, Las Vegas era o único lugar onde funcionavam cassinos legais. A partir de 1976 começaram suas atividades os cassinos de Atlantic City, Nova Jersey. Um pouco por vez foram dadas licenças de funcionamento, em grande parte motivados pelo desejo dos políticos de encontrar novas entradas para os gastos do governo. Atualmente os cassinos funcionam em 27 estados. Um exemplo é suficiente para ilustrar a mudança. Nos anos setenta um padre foi preso no estado de Iowa por ter organizado um bingo. Hoje, naquele estados norte-americano funcionam legalmente nove cassinos em barcos flutuantes, três cassinos nas mãos de índios e três hipódromos com máquinas da sorte. Nos territórios indígenas, onde não se cobram impostos, os cassinos prospera. Foxwoods, o cassino que neste momento está tendo o maior sucesso, encontra-se na reserva de uma tribo do estado de Connecticut. Recebe diariamente uma 45 mil pessoas e a cada dia tem um lucro de um milhão de US$. No total, em 1995, os norte-americanos gastaram 550 bilhões de US$ em jogos de azar. 40% desta quantia circulou nos cassinos. Os custos dos jogos de azar Os promotores dos jogos de azar asseguram que sua atividade gera benefícios indiscutíveis. Por um lado, alardeiam o dinheiro que vai para os cofres públicos. Por outros, explicam que os cassinos geram atividades comerciais na área e, também, criam postos de trabalho. Naquilo que se refere ao trabalho criado pelos cassinos nem todos estão de acordo. Em primeiro lugar, a maior parte dos trabalhadores recebem salários baixos: limpeza, serviços gerais, etc. Em segundo lugar, se as pessoas gastam o dinheiro nos cassinos, não poderão utilizá-lo em outras diversões ou na compra de roupas, por exemplo. Resultado: o comércio local vê-se prejudicado. Enquanto dos cassinos faturam alto, outros têm que procurar outro espaço. Se os jogos de azar trazem benefícios, também geram custos sociais. É muito difícil quantificar o preço social que resulta da difusão dos abusos pelos jogos de azar. Apesar do número de pessoas ligadas a este tipo de jogos é reduzido, os problemas que causam são consistentes. Nos EUA se calcula que 40% dos crimes de fraude tem suas raízes nos jogos de azar. Um estudo de 1990 realizado no Estado de Maryland quantificou o custo social causado por 50 mil jogadores habituais em 1,5 bilhão de US$. Mais ainda, o crescimento dos jogos de azar é a causa das bancarrotas, que estão aumentando. Em vários lugares dos EUA, a introdução dos cassinos foi associada com o aumento no número de divórcios e suicídios. Em muitos casos as pessoas que freqüentam os cassinos, ou compram os bilhetes da loteria, não são aqueles que podem permitir-se o luxo de jogar o dinheiro pela janela. Assim, o governo está aumentado suas entradas às custas dos grupos da sociedade que deveria proteger. Vários estudos demonstraram que as pessoas com menos grau de instrução gastam mais, em termos absolutos, com bilhetes da loteria, do que as pessoas estudadas. Obviamente são gasto voluntários, porém as ilusões criadas pelos anúncios e a pressão social, se tornam tentações fortes. É um modo para aumentar os impostos, sem fazê-lo abertamente, e o peso recai sobre as pessoas com menos recursos. O juízo moral Segundo o número 2413 do Catecismo da Igreja Católica, «Os jogos de azar ou as apostas não são em si mesmas contrárias à justiça». No entanto, o juízo moral é negativo quando o gasto é tal que impede atender às próprias necessidades ou às necessidades dos demais. Além disso o Catecismo chama a atenção para o fato que «A paixão pelo jogo corre o risco de se transformar numa dependência grave». Se a participação nos jogos de azar não é intrinsecamente má, então sua legitimidade dependerá a intenção da pessoa e das circunstâncias. Também deve-se reconhecer que, com moderação, pode ser a ocasião para um legítimo descanso. Especialmente quando se trata dos jogos que não são só diversões individuais, como as máquinas caça-níqueis, poder ser um meio de interação social e uma maneira de passar bem o tempo. Também não se pode esquecer que as loterias ou bingos têm para muitas organizações caritativas uma função social útil. Dito isto, os jogos de azar, e em particular as mudanças impostas nos últimos anos, suscitam certas reservas. Como se vê em muitos casos, as entradas são destinadas em boa parte para sanear as finanças do Estado, sem que por isso implique necessariamente uma ajuda às obras de especial utilidade social. Além disso, visto que os jogos são promovidos pelos grandes meios de comunicação, conseguem desencadear as emoções e os fatores irracionais. Quando se consideram seus custos sociais, percebe-se que o Estado em muitos casos não está promovendo o bem comum incentivando cada vez mais a participação popular nos jogos de azar. Quanto aos indivíduos é bom alertar para alguns erros muitos difundidos. Em primeiro lugar, é preciso evitar jogar só por fatores emocionais. Tal atitude pode levar a uma dependência cada vez maior e a ulteriores problemas pessoais e sociais. Em segundo lugar, seria um erro gastar dinheiro em jogos que deveria ser investido em coisas mais importantes: as necessidades familiares, a educação dos filhos, as obras de caridade, etc. Em terceiro lugar, não é demais alertar contra o engano e os truques que os «jogadores» utilizam para arrancar dinheiro dos novatos.