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De olho no lucro, americanos investem em empresas politicamente incorretas

13/02/2003

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De nada adiantam campanhas de órgãos de saúde, entidades governamentais ou protestos de ONGs. Apesar de toda a pressão atual por hábitos de vida saudáveis as pessoas continuam mantendo seus vícios e movimentando cada vez mais o mercado de cigarros, bebidas e jogos. Pelo menos é o que acredita um grupo de americanos que consideram os fabricantes desses produtos praticamente à prova de crises. E apostando exatamente nessa idéia criaram o Fundo do Vício, que oferece exclusivamente ações de empresas classificadas como “socialmente irresponsáveis”.
Com o objetivo de ser um refúgio anti-recessão, o Vice Fund iniciou suas atividades no mês passado a partir de pesquisas e discussões de membros da administradora de valores Mutuals.com. Entre as principais bases para a criação das carteiras estão os próprios índices de valorização dos papéis das empresas desses segmentos.
“As populações mundiais continuam bebendo, fumando e jogando seja qual for a situação no mercado”, destaca Dan Ahrens, vice-presidente do fundo em entrevista ao Último Segundo. “Chegamos a conclusão de que essas áreas específicas de investimento têm apresentado uma performance muito boa”, acrescenta, dizendo também que os conflitos recentes como o do Afeganistão, a Guerra ao Terror americana e a iminência de um ataque ao Iraque fez com que no conjunto das empresas listadas estivessem também fabricantes de armamentos.
Dados comparativos recentes apontados no site do fundo vêm reforçar a teoria dos idealizadores do projeto, apontando que a valorização das ações de indústrias relativas aos vícios chega a ser quase 10 vezes maior que a do índice americano Standard & Poor’s 500. Nos últimos cinco anos – de 30 de julho de 1997 até 30 de julho de 2002 – enquanto o índice S&P 500 rendeu 11,83% os papéis de empresas de bebidas alcoólicas valorizaram 62,57 e os de empresas de armamentos, 24,57. Na área de diversões eletrônicas e jogos os números foram ainda mais gritantes: 116,35% contra 11,83%. Nos últimos cinco anos, somente as ações dos fabricantes de cigarros ficaram abaixo do índice americano: 7,82% contra 11,83% do S&P.
O Vice Fund surge como o primeiro a não se preocupar em adequar suas atividades a áreas sociais ou ecologicamente corretas, contrariando a tendência da maioria dos fundos atuais. Isso representa, na visão de Ahrens, a quebra de uma barreira, já que no passado muitos daqueles que gostariam de construir um fundo focado exatamente nessas atividades viam-se comprometidos com as responsabilidade social e acabavam desistindo. “Nós não criamos um fundo para ser socialmente incorreto, mas para investir em boas performances”, diz.
Apesar das críticas que surgiram principalmente na época da criação, grande parte da sociedade americana já assimilou a proposta do fundo. “A reação da mídia e dos investidores foi impressionante. Parece que muitos americanos conseguiram compreender os objetivos e a visão otimista do Fundo de Vício em relação à suas carteiras”, assinala o diretor Brian Bull.
Como funciona?
Desembolsando no mínimo US$ 2,5 mil qualquer cidadão norte-americano pode começar a aplicar no Fundo de Vício. Basta preencher um formulário – pela internet ou por meio de corretoras – com dados pessoais, conta bancária e valor a ser disponibilizado para entrar para o ramo dos acionistas.
A carteira oferece ações de quarenta empresas e é indicada para quem está procurando investimentos com retorno a médio e longo prazo. Entre elas estão Brown-Forman Corp., Adolph Coors Co. e Anheuser-Busch do ramo de bebidas alcoólicas, Philip Morris, UST Corp. e Swedish Match, de cigarros, Penn National Gaming, Harrah’s Entertainment, Mandalay Resort Group e GTech Holdings, jogos e entretenimento; e Boeing ou Lockheed Martin em defesa aeroespacial.
E não são raros os interessados nas perspectivas de estabilidade e boa rentabilidade que os papéis oferecem. Em pouco mais de um mês o Vice Fund já reúne centenas de pessoas. “É difícil dizer exatamente quantos investidores existem no fundo. A única coisa que temos certeza é que são mais de 300 e menos de mil. (…) Quando as pessoas aderem por meio de corretoras fica mais difícil contabilizar”, acrescenta Ahrens.
Para o futuro, a expectativa da Mutuals.com é que a adesão a esse tipo de aplicação continue aumentando. “Acreditamos que o sucesso dos setores em que investe o Fundo de Vício continuará crescendo. Algumas de suas áreas já têm sido observadas cuidadosamente e têm apresentado boas performances nos últimos tempos. É certo que sempre haverá oscilações que possam atingir a qualquer empresa, mas acreditamos que a população continuará a beber, fumar e jogar, assim como os países precisarão sempre de reforço militar”, conclui o vice-presidente.
Brasil: fundo de vício saudável daria mais certo.
No Brasil a criação de um fundo semelhante não seria tão viável, conforme destaca Istvan Kasznar, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e Empresas da FGV. Entre as razões principais estão a menor quantidade de marcas de produtos de vício ofertadas em relação aos Estados Unidos – desde cigarros até cervejas e uísques – e a inexistência oficial dos estabelecimentos de jogos, que são proibidos no país.
“Aqui (Brasil) o que poderia dar certo seriam fundos de vícios saudáveis, como o de fisiocultura. Segundo a Sociedade Brasileira de Fisioculturismo, esse ramo cresce 22% ao ano. Poderiam ser vendidas ações de academias de ginástica, por exemplo”, assinala.
De acordo com Kasznar, as ações da “indústria do vício” sempre foram objeto de atenção dos analistas. Isso porque tendem a trazer lucros razoáveis que perduram por bastante tempo. “É umas idéias antigas, inteligentes e factíveis. O cigarro, por exemplo. As pessoas continuam fumando, é uma necessidade metabólica”, destaca.
No futuro, entretanto, essas empresas, principalmente as de álcool e fumo, podem deixar de ser tão rentáveis devido aos ataques governamentais, na opinião do economista. “Com uma conscientização maior pode vir a sofrer perda de mercado”, conclui.
Camila Fusco, repórter iG em São Paulo