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Será que defender a manutenção do jogo na clandestinidade agrada a Deus?

11/06/2018

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O artigo ‘Jogos de azar valem a pena?’ de autoria do Cardeal-Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo P. Scherer e veiculado pela edição do O Estado de São Paulo do último sábado (9), é mais uma panfletagem do lobby daqueles que desejam manter o jogo na clandestinidade.

O jornal paulista, que sempre se coloca com frequência na vanguarda do atraso e do conservadorismo, também se alia ao jogo ilegal pela preferência por opiniões com viés negativo sobre a legalização dos jogos.

Nesta nova oportunidade, o representante da Igreja Católica ataca o processo de liberação questionando se vale a pena legalizar o jogo no Brasil devido ao “fator de altíssimo risco social, econômico, sanitário e moral, para assumir depois todo o ônus que dele decorre, descarregando-o sobre os contribuintes”.

O brasileiro não está proibido de jogar, o Brasil é que está impedido de arrecadar com os jogos e proteger seus cidadãos dos custos sociais. Equivocadamente, o Cardeal cita que que “os cálculos da eventual arrecadação não fazem menção dos altíssimos custos sociais e morais dos jogos de azar” como se no país não tivesse jogos em operação.

É ridículo e hipócrita um representante da Igreja Católica usar moralidade contra os jogos, enquanto a instituição do Santo Padre vive as voltas com casos comprovados de pedofilia, que por ser um crime hediondo vai muito além da imoralidade.

Em 2007, logo após ser nomeado cardeal, Dom Odilo deu uma declaração polêmica ao afirmar que tinha virado moda a acusação de pedofilia contra padres.

“Hoje é muito fácil levantar uma acusação de pedofilia, uma vez que isso está na moda, uma vez que em outros países isso levou a perspectiva de poder eventualmente ganhar uma indenização fabulosa”.

Igreja católica australiana pagou 200 milhões de euros a vítimas de pedofilia

No ano passado, a Igreja Católica australiana pagou mais de 276 milhões de dólares australianos (perto de 200 milhões de euros) às vítimas de pedofilia em resposta às denúncias interpostas entre 1980 e 2015.

O dinheiro foi distribuído por 3.066 vítimas, sendo que, em média, cada uma recebeu perto de 91.000 dólares australianos (cerca de 66.000 euros). Aproximadamente 4.500 pessoas apresentaram queixas por alegado abuso sexual infantil entre os anos 1980 e 2015, apesar de alguns dos crimes denunciados remontarem ao início da década de 1920. Cerca de 7% dos padres católicos australianos são acusados de abusar sexualmente de menores. Todavia, quando se analisam os números por diocese, registram-se taxas que chegam aos 15%.

CNBB manifestou apreensão com a legalização dos jogos no Brasil

Em 2016, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou nota na qual manifestava apreensão com a “avançada tramitação” na Câmara dos Deputados e no Senado Federal de projetos para legalizar os jogos de azar no país. No texto, assinado pelo Arcebispo de Brasília, Dom Sergio da Rocha o presidente da CNBB defendeu que “tenham certeza de que o voto favorável será, na prática, um voto de desprezo por nossas famílias e seus valores fundamentais”. Será que a pedofilia é um valor fundamental?

Operador de bingos nos Estados Unidos

A CNBB e o Cardeal de São Paulo se colocam contrários a legalização dos jogos no Brasil por entender que existem riscos como a destruição de famílias e patrimônio, mas não é bem assim que as paróquias católicas dos Estados Unidos pensam e se comportam.

Em janeiro deste ano, o BNL veiculou a reportagem ‘Paróquias católicas dos EUA tornaram-se dependentes da receita dos bingos e sorteios’, que através de uma pesquisa sobre o jogo na igreja católica, coordenada pela Ph.D em Telologia da Moral, Beth Haile e veiculada pelo portal US Catholic dos Missionários Claretianos comprovou que muitas paróquias católicas dos Estados Unidos tornaram-se dependentes da receita das apostas em bingos e dos bilhetes de sorteios.

Debate contaminado

Nas últimas sete décadas, vários temas têm gerado polêmica no Brasil e dentre eles a legalização do jogo, que seja por questões religiosas, morais, políticas, ideológicas, têm contaminando e distorcido o debate.

O jogo é anterior a religião e a cultura, portanto jogar e apostar faz parte de uma terapia, além disso, não é uma atividade pecaminosa. A paixão por jogos é tão antiga que talvez remonte à pré-história da humanidade. Nas milhares de páginas da Bíblia não existe uma linha que condene a prática do jogo, até mesmo nos sete pecados capitais o jogo não está incluído. A Bíblia registra, em passagens de seus livros mais antigos, o uso de sortes indicando fortuna e desgraça.

Referência no catecismo

A única referência dentro ao tema pode ser encontrada no capítulo ‘J.3 Jogos de Sorte’ – §2413 do Catecismo da Igreja Católica, que não considera o jogo imoral se praticado de forma moderada, com objetivo de lazer, sem a aposta de quantias exorbitantes e sem o cultivo da avareza.

J.3 Jogos de Sorte

§2413 – Os jogos de azar (jogos de cartas etc.) ou as apostas em si não são contrários à justiça. Tomam-se moralmente inaceitáveis quando privam a pessoa daquilo que lhe é necessário para suprir suas necessidades e as dos outros. A paixão pelo jogo corre o risco de se transformar em uma dependência grave. Apostar injustamente ou trapacear nos jogos constitui matéria grave, a menos que o dano infligido seja tão pequeno aquele que o sofre não possa razoavelmente considerá-lo significativo.

A ‘indústria da proibição’ é muito lucrativa e preocupa ver católicos e evangélicos liderando o lobby para manter esta atividade na clandestinidade.

Nas dez principais economias do mundo, EUA, China, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Índia, Itália e Canadá os jogos são legalizados e regulamentados. Estes países perceberam que do ponto de vista social, econômico e da segurança pública é melhor manter este setor sob controle do Estado, mas legalizar esta atividade é imoral para a Igreja Católica do Brasil.

Na verdade, imoral é trabalhar para manter os jogos na clandestinidade. E com certeza, esta opção não deve ser a que mais agrada a Deus.