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Alguns números da loteria retornam prêmios menores

22/04/2019

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Samy Dana (*)

Eu costumo dizer para aqueles que ignoram riscos e só olham casos de sucesso que não há investimento melhor do que apostar na Mega-Sena. Com um bilhete da loteria, que custa R$ 3,50, dá para ficar rico, recebendo prêmios de até R$ 200 milhões.

Mas também é verdade que se fôssemos levar em conta apenas a racionalidade, ninguém apostaria na loteria. As chances de ganhar são ínfimas, na Mega Sena, por exemplo, de 1 em 55 milhões.

Existe uma maneira de aumentar as chances: apostar mais dezenas. Mas então o custo da aposta também sobe, elevando bastante o prejuízo caso continue sem ganhar. Uma aposta de 15 dezenas, o máximo permitido na Mega-Sena, por exemplo, custa R$ 17.517,50.

É verdade que a possibilidade aumenta muito, para 1 em 10.003. Mas ainda é baixíssima, 0,0001%. Alguém que gaste esse mesmo valor em cada sorteio, torrando mais de R$ 140 mil mensais, em poucos anos precisará de um prêmio da Mega-Sena só para pagar as apostas feitas.

É lógico que pouca gente faz isso, se é que alguém faz. Mas o bom da economia é que podemos especular. Vamos imaginar que, depois de três anos, essa pessoa desvairada finalmente ganhou na loteria. Só que agora tem de dividir o prêmio com outros ganhadores, algo comum nos valores mais altos. Resultado: mal recuperou o dinheiro apostado.

Mas há um caminho para ela não só recuperar tudo que apostando como ainda sair lucrando, segundo um curioso estudo de 2016 produzido por quatro economistas comportamentais. Basta que todos os números sorteados fiquem acima de 31.

Tong Wang, Rogier van Loon, Martijn van der Assen e Dennie van Dolder, todos ligados a universidades holandesas, revisaram mais de 2,5 milhões de apostas feitas em 175 sorteios da loto holandesa – na qual os apostadores escolhem cinco dezenas de 1 a 45 – entre 2010 a 2012, e os números de uma loteria privada, de um cassino, entre 2013 e 2014.

Os resultados, publicados no Journal of Decision Making, revelam o quanto números de loteria refletem nosso comportamento. A maioria prefere aqueles que são significativos. Por exemplo, o dia em que eles ou alguém próximo nasceram. Ou a idade dos filhos.

É uma forma de demonstrar que essas pessoas são importantes. Mas o problema é que esses números costumam ser baixos. Há no máximo 31 dias em um mês, logo, qualquer escolha baseada nos dias do aniversário já repete as apostas da maioria. No caso dos meses do ano, de 1 a 12, ocorre a mesma coisa. E, considerando que estamos em 2019, o mesmo para o ano de nascimento dos filhos desde a década de 90.

As pessoas também gostam dos números que estão no centro das possibilidades no volante. Na Mega-Sena, por exemplo, fica entre 21 e 40. Por último, existe uma preocupação estética. Isto é, os apostadores usavam sequências (09,18, 27, 36 e 45 e etc) ou repetiam números que saíram nos últimos sorteios.

Não importava a loteria, os padrões das apostas eram iguais e quando ganhavam, os apostadores de números mais baixos geralmente recebiam prêmios menores do que os ganhadores com os números mais altos. Ou seja, apostar com a maioria diminui o valor do prêmio a ser recebido.

Isso, para os pesquisadores, não significa que as pessoas desejam prêmios menores ou ignoram que no fim das contas os números sorteados são aleatórios. Números mais baixos são mais fáceis de memorizar e eles simplesmente seguem as apostas da maioria. O bom e velho efeito manada, do qual já tratei outras vezes nesse espaço.

(*) Samy Dana é economista com Ph.D em finanças, é consultor, professor de carreira da Eaesp-FGV e veiculou o artigo acima na editoria de Economia do G1.